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Muitos filmes de grande qualidade não têm o destaque que merecem, passando quase despercebidos. Por razões meramente económicas, as verbas promocionais concentram-se apenas em meia dúzia de títulos "mais comerciais". Para contrariar esta tendência, criámos este espaço de partilha e entre-ajuda, onde todos podem participar: escolha os filmes que achou mais marcantes e deixe o seu comentário.
Foram encontrados 87 comentários. Resultados de 21 a 40 ordenados por data:
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Exterminador Implacável: A Salvação (BLU-RAY) (Pontuação: 9)
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Uma Sequela com Pés e Cabeça!, 2009-12-10
Para se entender este fenómeno da "Terminatormania", é preciso recuar até ao ano de 1984 do século passado quando um filme intitulado "Terminator" chegou aos cinemas. Nele contava-se a história de um robot assassino que vinha do ano 2029 até ao presente para matar a mãe do líder da resistência humana no futuro. Ao mesmo tempo, John Connor, líder da resistência humana enviava um soldado para proteger a sua mãe, Sarah Connor, do robot assassino. Tratando-se duma premissa original dentro do género e sendo apenas o segundo filme do seu realizador, foi somando sucesso atrás de sucesso. Quando no Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz ganhou o Grande Prémio, o filme tornou-se num dos grandes êxitos de bilheteira do ano e transformou-se em filme-culto da década de 80. Estava dado o primeiro passo para o realizador James Cameron começar a sua ascensão na grande escadaria do cinema que culminariau no mega-sucesso em todos os campos que foi "Titanic" (1997).
Na década seguinte "Terminator 2: O Dia do Julgamento" (James Cameron, 1991) continuava a história e tornava-a mais complexa: um novo assassino, muito mais moderno e poderoso, é enviado do ano de 2029 ao presente para matar John Connor, agora adolescente enquanto um modelo do anterior assassino, reprogramado pela resistência tem por missão proteger Connor, salvar a sua mãe que está internada num hospital Psiquíatrico e ainda impedir que a humanidade se auto-destrua num holocausto nuclear programado para acontecer a 29 de Agosto de 1997. Técnicamente superior ao filme anterior, o êxito não se fez esperar e o filme acabou por ser o maior êxito de bilheteira de 1991, além de triunfar na cerimónia do Óscares onde ganhou 4 prémios em seis possíveis ( tal só tinha contecido a um filme de ficção científica em 1977 quando "A Guerra das Estrelas" ganhou 7 Óscares em dez possíveis).
Já no século XXI "Terminator 3: A Ascensão das Máquinas" (Jonathan Mostow, 2003) pretendeu ser um novo patamar na saga: John Connor é agora um zé-ninguém e vive ao abandono. Um novo robot, desta vez uma assassina, vem do futuro para o matar e também à sua futura esposa. Uma nova versão do robot de T-2 vem para o proteger.
Sem acrescentar nada de novo à série e arriscando-se a repetir a fórmula do segundo filme, não fosse o terço final que confere alguma originalidade e fecha a trilogia, "Terminator 3" seria fácilmente esquecido assim como foi o seu relativo sucesso. Chegamos então a "Exterminador Implacável: Salvação".
Estamos em 2003 e um criminoso no Corredor da Morte, aceita doar o seu corpo, depois de morto, para pesquisas médicas. Uma nao mais tarde, o sistema de defesa Skynet é activado e, perseguindo os humanos, destrói três quartos da população mundial no acontecimento que será conhecido como o Dia do Julgamento. Em 2018, o que resta da população une-se em torno do lider da resistência John Connor na luta contra as máquinas e o aparecimento de um estranho vindo do passado, no seio do grupo de Connor, trará consequências futuras.
McG (abreviatura de McGinty)foi o realizador escolhido para dar forma a este novo episódio da saga Terminator. Vindo do mundo da música onde realizou alguns vídeoclips, ganhou prémios e com apenas dois filmes de cinema "Charlie's Angels" (2000) e "Charlie's Angels - Full Throttle" (2003) baseados na famosa série do mesmo nome exibida na televisão (1976-1981) mas que não lhe fazem justiça, o realizador não parecia, á partida, ter aptidão para levar este barco a bom porto. Engano! não só se revelou capaz de lidar com o material que tinha (diz-se que James Cameron terá dado uma mãozinha no argumento, mas não se ligou à produção do filme ao contrário do que fora anunciado), como deu o melhor seguimento à saga.
Trabalhando com a maior parte dos técnicos que fizeram os filmes anteriores, McG ignorou o terceiro filme da série e prácticamente prosseguiu a história a partir do final do segundo filme (a cena final, em "Terminator 2", quando Sarah viaja numa autoestrada de noite em direcção ao desconhecido, poderia perfeitamente ser o principio deste filme).
Situando a acção no futuro, que apenas era vislumbrado nalgumas cenas nos filmes anteriores, McG torna este filme numa das mais originais sequelas de sempre, com pés e cabeça, a sua realização é segura e técnicamente bem conseguida.
No elenco encontramos Christian Bale (cada vez mais o actor se especializa em hérois), Sam Worthington, Helena Bonham Carter, Bryce Dallas Howard, Michael Ironside e...Arnold Schwarzenegger! o actor, que participou nos três filmes anteriores da saga, autrorizou a utilização da sua imagem, para criar o T-800 assassino que surge no primeiro filme: A cena em que John Connor, dentro da Skynet, vê aparecer o robot assassino que o ataca (ao som do tema original de Brad Fiedel) e o combate que se segue, são os momentos altos de um filme que agarra o espectador desde as primeiras imagens e nunca perde o interesse ou tenta sequer imitar os anteriores. É uma aposta ganha e o sucesso de bilheteira que obteve em todo o mundo diz-nos que estamos perante um novo e diferente patamar de uma saga cuja fórmula ainda não nos disse tudo.
Oxalá assim continue!
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Quem Quer Ser Bilionário? (BLU-RAY) (Pontuação: 7)
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Muita Parra para pouca Uva!, 2009-12-03
Já vem sendo hábito produções sairem directamente para as prateleiras dos vídeoclubes sem fazerem carreira comercial nas salas de cinema. Por vezes, nesta política, perdem-se algumas boas obras. Há, no entanto, excepções.
Jamal Malik, um jovem oriundo de Mumbai, subúrbio de Bombaim, está quase a fazer história: na versão indiana do famoso concurso televisivo "Quem quer ser Milionário?", está a uma pergunta de ganhar um prémio de 20 milhões de rupias. As autoridades suspeitam que possa haver fraude e para isso prendem-no e interrogam-no sobre o que realmente está por detrás da sua excepcional carreira no concurso. Jamal conta-lhes então história da sua vida.
Danny Boyle, autor de "Pequenos crimes entre Amigos" (1994), uma comédia com contornos de thriller e uma das melhores comédias dos últimos anos; "Trainspotting" (1996) um filme sobre amizade e como largar o consumo de drogas. Na altura foi um sucesso em todo o mundo, hoje é um filme de culto; "A Praia" (2000) filme de aventuras centrado na descoberta dum velho mapa que supostamente conduz a uma ilha paradisíaca; "28 dias depois" (2002) filme de terror passado numa Grã-Bretanha assolado por uma estranha praga, realiza este filme com alguma falta de inspiração patente ao longo do filme.
Técnicamente bem conseguido em termos de fotografia ( cores brilhantes na infância de Jamal, intensas nas imagens do presente), direcção artistíca (todo o bairro de lata onde se passa a infãncia de Jamal é real), e banda sonora (acertada a escolha do compositor indiano A.R.Rahman), é na parte do argumento que surge a desinspiração: talvez por não trabalhar com Alex Garland o seu argumentista habitual, a adaptação para o grande écran do livro de Vikas Swarup, no qual o filme se baseia, fica aquém das expectativas; falta dramatismo em grande parte do filme e a culpa não é certamente do elenco que, apesar de desconhecido, consegue fazer o seu melhor.
Filme de contrastes (mesmo estes estão pouco explorados), algo desequilibrado: começa bem ao contar-nos a infãncia de Jamal e Malik seu irmão e todo os problemas que enfrentam após a morte da mãe (a cena do ataque dos muçulmanos a Mumbai é das cenas mais bem conseguidas de todo o filme); a meio quando Jamal, Malik e Latika se reencontram, o filme começa a tornar-se demasiado banal (a cena do encontro entre Jamal e o amigo cego é forçada); o final é prácticamente todo previsível e o pouco dramatismo existente, desaparece rápidamente, o que é uma pena porque o argumento e o realizador tinham potencialidades para muito mais.
Produção acidentada e várias vezes interrompida, "Slumdog Millionaire" estava destinado a fazer uma carreira em DVD não fosse o seu triunfo algo inesperado nos Globos de Ouro da Imprensa Estrangeira onde venceu quatro prémios incluindo o de Melhor Filme na Categoria de Drama e o de Melhor Realizador. Daqui até á carreira comercial e a vitória quase total nos Óscares, foi um saltinho.
Filme altamente sobrevalorizado, foi nomeado para dez Óscares da Academia, venceu oito incluindo o de melhor Filme do Ano e de melhor Realizador. Prémios a mais para um filme mediano e que nunca disso passará.
Longe de ser uma obra-prima, "Slumdog Millionaire", poderá ser considerado uma decepção se atendermos às suas potencialidades, um filme que se vê com agrado se não se procurar mais do que passar o tempo, uma mais-valia para o seu realizador, mas uma obra menor no seio da sua filmografia.
Cinéfilo que se considere como tal, ficará indiferente perante este filme.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Sacanas sem Lei (Pontuação: 9)
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Tarantino no seu Melhor!, 2009-11-28
Desde "O Resgate do Soldado Ryan" (Steven Spielberg, 1998) que o cinema parece ter sentido a necessidade de recriar as batalhas das diversas guerras que assolaram a segunda metade do século passado. Assim tivemos a "A Barreira Invísivel" (Terrence Malick, 1998), As Bandeiras dos Nossos Pais" (Clint Eastwood, 2006), "Cartas de Iwo Jiwa" (Clint Eastwood, 2006) só para citar alguns exemplos mais marcantes. Recentemente tivemos "Sacanas sem Lei" que nos dá uma versão alternativa da IIªGuerra Mundial.
Em 1941, na França ocupada pelos nazis o coronel Hans Landa, conhecido como o "caçador de judeus", manda executar uma familia judia depois de um interrogatório onde apenas o elemento mais novo da familia consegue escapar. Três anos depois, em 1944, enquanto um grupo de comandos constituido por americanos descendentes de judeus leva a cabo uma missão de retaliação contra os nazis, secretamente, em Paris, a dona de um cinema prepara um plano para matar todo o alto comando alemão.
Quentin Tarantino, autor de "Cães Danados" (1992), um policial que rápidamente se transformou em filme-culto, "Pulp Fiction" (1994) homenagem violenta aos romances de cordel, "Jackie Brown" (1997) homenagem ao policial negro, levemente Kubrickiano, "Kill Bill" (2003-2004), diptíco sobre a vingança, realiza este filme de forma segura e directa o que contribui para que a sua longa duração não seja notada.
Tarantino é um fân de cinema e, mais do que dizer que é, faz-nos sentir que o é. Em todos os seus filmes está sempre patente a homenagem à sétima arte e a filmes que o realizador tanto gosta, descarada por vezes, subtil noutras, mas sempre presente. parece haver uma necessidade inerente ao realizador de o fazer. "Sacanas sem Lei" não é excepção e nele vamos encontrar dezenas de referências a filmes que vão desde o western até ao filme de guerra, do drama ao musical, do filme de animação à comédia e até cinema europeu lá aparece referenciado. A combinação de todos estes géneros num filme, embora apenas em discretas referências, poderia resultar, nas mãos de qualquer outro realizador, numa obra de incrível mau gosto, mas não com Tarantino; nele tudo é doseado, credível e muito bem feito.
Narrativa fragmentada e dividida em capítulos, tão ao gosto do realizador, que já o fizera em "Pulp fiction" e em "Kill Bill", resulta, não só graças ao seu trabalho de realização, como também ao trabalho de todo o elenco. Contando com Brad Pitt, acabadinho de sair das mãos dos irmãos Coen em "Destruir depois de Ler" (2008) e de David Fincher em "O Estranho Caso de Benjamin Button" (2008), que vinha no ponto para interpretar o Tenente Aldo Raine, o chefe dos sacanas. O seu discurso introdutório aos Sacanas, (homenagem a "Os Doze Indomáveis Patifes" de Robert Aldrich,1967) é memorável, assim como as palavras que pronuncia antes de marcar os seus inimigos são simplesmente tétricas. O actor tem uma interpretação ao melhor nível de tantas outras que já teve como por exemplo "Seven" (David Fincher,1995), "Clube de Combate" (David Fincher,1999) ou "Tróia" (Wolfgang Petersen, 2004) para além das já citadas. Outra grande interpretação é a de Christoph Waltz, no papel do Coronel Hans Landa, actor Austríaco, conhecido na europa onde já trabalhou com alguns nomes importantes do cinema do velho continente, tem aqui o seu primeiro papel em terras americanas...e que papel! o seu quase monólogo em francês e inglês quando interroga o cabeça da familia judia, que dura prácticamente todo o primeiro capítulo do filme, pode quase considerar-se irritante e monótono, não fosse a realização de Tarantino alternar movimentos de camâra com grandes planos de ambos os interlocutores de modo a tornar a cena mais suave e de fácil aceitação, é absolutamente fascinante e merecedora de, pelo menos uma nomeação para Oscar.
O resto do elenco está perfeitamente adequado ao filme e conta com nomes com Diane Kruger, Eli Roth, Michael Fassbender, Samuel L.Jackson (narrador) e quase participações especiais de Michael Myers e um irreconhecível Rod Taylor.
"Sacanas sem Lei" é baseado no filme "Inglorious Bastards" de Enzo G. Castellari (1978), realizador que, de resto, Tarantino fez questão que participasse no seu filme (é o general alemão de barba comprida que se vê no meio do público pouco antes de se iniciar a matança). Bo Svenson, um dos actores do filme de Castellari, também tem uma pequena participação no filme.
"Sacanas sem Lei" é um filme de guerra, extremamente violento em algumas cenas como por exemplo a cena em que os Sacanas capturam uma patrulha alemã e interrogam os prisioneiros; ou a do café e do massacre que se lhe segue entre alemães e os aliados; ou toda a sequência final da matança e do incêndio, com um desfecho alternativo em relação ao que a história nos conta, é, portanto, um filme diferente dos que habitualmente vemos, por isso e por ser um filme de Quentin Tarantino vale a pena ver e deliciarmo-nos com a sua constante homenagem ao cinema.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Excalibur (Pontuação: 10)
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O Recontar Operático e Mitíco de uma Lenda!, 2009-11-27
Tive oportunidade de há alguns meses atrás comentar "Arthur" (Antoine Fuqua, 2004) em que era contada a história do rei Artur e dos seus cavaleiros numa versão livre. Nesse comentário referi o filme que hoje vou comentar: "Excalibur".
Na Inglaterra pré-medieval, Uther Pendragon e Cornwall, dois senhores da guerra lutam pela posse do território e ser o Rei Supremo. Merlin vê em Uther a única possibilidade de unificar o país e acabar com aquela guerra, para isso o mago entrega a Uther a espada Excalibur que é o símbolo da união. Cornwall ao ver a espada, reconhece Uther como rei e aparentemente a paz é estabelecida...
Realizado por John Boorman, autor de "Inferno no Pacífico" (1968) um excepcional drama de guerra centrado no relacionamento entre dois soldados, um americano, o outro japonês numa ilha do pacifico; "Fim-de-semana-Alucinante"(1972) um thriller quase ecologista passado na américa interior; "Zardoz" (1974) ficção cientifica pós-apocalíptica ou o mal-afamado e quase ridículo "Exorcista II: O Herege" (1977) suposta continuação de " O Exorcista" (William Friedkin, 1973), conseguiu realizar este filme depois de quatro anos duma travessia do deserto forçada pelo enorme fracasso em todos os aspectos que foi "Exorcista II", recorrendo ao financiamento de amigos e familliares, o filme acaba por ser uma fascinante versão da obra de Thomas Mallory "Le Morte d'Arthur" e uma visão interessante e diferente duma época conhecida na história como a Idade das Trevas.
Fortemente inspirado em "Os Cavaleiros da Távola Redonda" (Richard Thorpe,1953), uma das versões mais conhecidas da lenda do Rei Artur mas também a mais romanceada com o clássico triângulo amoroso (Artur/Guinevere/Lancelote) a ganhar pontos em relação á lenda relegando-a para segundo plano, "Excalibur", pelo contrário, dá enfase à lenda na ascensão de Artur desde que este tira a espada da pedra até à traição de Guinevere e à mitologia onde a busca do Santo Graal, que ocupa todo o terço central do filme, é o melhor exemplo. Boorman filma tudo com a urgência de quem quer mostrar o máximo possível do material que tem em mãos. O resultado poderia ter sido outro não fosse Boorman um realizador experiente e saber o que fazer.
O realizador tira partido das belíssimas paisagens da Irlanda onde decorreu a maior parte dos exteriores e constroi com eles cenas de grande fôlego cinematográfico, embora violentas.
É impossível ficar indiferente á cena em que a espada Excalibur surge das águas calmas do lago que é duma beleza dificil de descrever ou a cena que fecha o filme com o barco transportando o corpo de Artur em direcção a um sol poente bonito e misterioso. Até em cenas mais violentas como o cerco ao castelo de Leondegrance ou a da batalha final, simbolizando esta última a eterna luta entre o bem (Artur e os seus cavaleiros com as suas armaduras de um branco imaculado) e o mal (Mordred e o seu exército com as armaduras escuras); fabulosa é também a cena em que Artur e os seus cavaleiros cavalgam para a batalha final por entre uma alameda de árvores onde a vegetação renasce ao som de "Fortuna" de Carmina Burana: épica e visualmente bem conseguida.
Com um elenco onde pontuam nomes sonantes como Helen Mirren, Liam Neeson ou Gabriel Byrne, "Excalibur", resulta na magnifíca transposição duma lenda para um filme operático, cheio de luz e som.
Uma última palavra para um aspecto que, a maior parte das vezes, é ignorado e que neste filme adquire uma importância maior e justifica as minhas palavras no parágrafo anterior: a banda sonora.
Em "Excalibur" a banda sonora (maioritáriamente composta por excertos das óperas de Wagner) tem muita importância porque em diversas cenas, a música complementa as imagens: por exemplo na já citada cena da cavalgada de Artur; no casamento de Artur e Guinevere; mas é na cena da morte de Artur e quando Perceval, mandado por Artur, vai atirar a espada ao lago que a música adquire a sua expressão máxima e em que até o próprio espectador se sente envolvido naquela que é a cena mais dramática do filme: magnifica utilização da música.
"Excalibur" serviu de referência a uma série de filmes dos quais se destacam "Merlin" (Steve Barron, 1998, TV) ou "Brumas de Avalon" (Uli Edel, 2001, TV), este último baseado num livro de Marion Zimmer Bradley e conta a lenda do ponto de vista das mulheres da corte: original e diferente.
"Excalibur", apesar dos anos, não é um filme datado e permanece ainda hoje como uma das melhores adaptações do romance de Thomas Mallory.
a ver e a redescobrir sempre.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Heat - Cidade sob Pressão (Pontuação: 10)
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Filme Policial muito acima da Média!, 2009-11-24
O género policial ganhou grande visibilidade a partir do filme "Bullit" (Peter Yates, 1968) e da sua hoje lendária perseguição automóvel pelas ruas de S.Francisco, foi evoluindo e hoje tem o seu espaço definido na sétima arte e muitos foram os filmes que contribuíram para a definição do género.
Vincent Hanna e Neal McCauley são dois homens que estão nos dois lados opostos da lei: Hanna é Detective-Tenente na policia de Los Angeles, McCauley é um ladrão profissional...após um assalto, Vincent Hanna é o detective encarregado de investigar o roubo e Neal McCauley é o seu principal suspeito. Entre os dois nasce uma mútua admiração e vão-se apercebendo que têm mais em comum do que pensavam (Hanna é divorciado e não tem vida própria, até o seu mais recente casamento está por um fio; McCauley é um ex-condenado e não tem tempo para criar raízes sob pena de ter que largar tudo e fugir). Entre ambos está uma cidade sob pressão...
"Heat" é baseado em "L.A.Takedown", um telefilme que Michael Mann realizou em 1989 e que seria o episódio-piloto de uma série policial que acabou por não ser feita. Mann aproveitou então o argumento do telefilme e reescreveu-o para este filme e em boa hora o fez porque ficámos todos nós (cinéfilos) a ganhar. O projecto inicial era uma espécie de "Miami Vice" (1984-1989), série criada por Mann, com todos os ingredientes da série anterior (felizmente sem Don Johnson), passada em Los Angeles...o que não traria nada de novo e a sensação que pairaria no ar seria a de um "dejá-vú" isto em qualquer lugar! (sim, eu sei que já usei esta frase noutra ocasião...mas aqui também se aplica!).
Quando se juntam no mesmo filme os dois melhores actores do mundo (venha daí quem discordar!) perfeitamente secundados por um elenco de luxo, o resultado só pode ser um grande filme de muita qualidade.
Al Pacino e Robert DeNiro só haviam contracenado juntos uma única vez no fabuloso "Padrinho - Parte II" (Francis Ford Coppola, 1974) mas não tiveram nenhuma cena juntos. Ambos lamentaram o facto durante anos e era sua vontade partilharem o écran. "Heat" permitiu que isso acontecesse e o resultado é, nada menos que, magia pura: as cenas em que ambos contracenam são absolutamente brilhantes, nenhum deles tem que se esforçar para se evidenciar; as suas interpretações são tão credíveis que dificilmente acreditamos que estamos a ver um filme: para conferir as minhas palavras basta ver com atenção a cena passada no café do aeroporto de Los Angeles onde um e outro se confrontam naquilo que mais parece uma conversa de amigos do que um confronto entre um policía e um ladrão: é das melhores cenas de interpretação que vi em toda a minha vida e se o filme terminasse ali, já teria valido só por isso.
Do restante elenco salientam-se as interpretações do Val Kilmer, Tom Sizemore, Diane Venora e o regressado Jon Voight.
A realização de Michael Mann, autor de filmes como "Thief- Ladrão Profissional" (1981), "Manhunter - Caçada ao Amanhecer" (1986), primeira incursão de Hannibal Lecter no cinema, anos antes de "O Silêncio dos Inocentes (Jonathan Demme, 1991); "O Último dos Moicanos" (1992) enésima versão cinematógráfica deste clássico da literatura mundial com Daniel-Day Lewis e uma excepcional banda sonora; "Collateral" (2004) com Tom Cruise, ou "Miami Vice" (2006) adaptação para o grande écran da série policial acima citada, é estilizada com muita influência televisiva ( a cena do assalto no incio do filme ou a trama a meio do filme com o assassino das prostitutas), movimentada (toda a sequência do assalto ao banco e o tiroteio que se segue, em pleno dia e em hora de ponta ou a da perseguição no aeroporto, a fazer lembrar "Bullit"). Michael Mann filma tudo isto de maneira absolutamente credível e realista.
Outros trunfos do realizador, além de saber contar uma história, é a utilização da banda sonora que procura adequar ao material que filma (estranha e melancólica em "Thief" e "Heat"; épica em "Last of the Mohicans", moderna e barulhenta em "Miami Vice"). Também a fotografia cuidada que usa nos filmes (Oscar da Academia em "O Último dos Moicanos"): o seu uso dramático da cor, é uma mais valia para cada filme: atente-se as cenas nocturnas em "Thief", "Miami Vice", "Collateral" e este "Heat", que ganham vida própria tornando-se parte integrante do filme e não apenas cenário.
Estamos perante um dos melhores exemplos de cinema da década de 90 do século passado e um dos melhores policiais de sempre, capaz de ombrear com clássicos do género como "Bullit", "French Connection" ou "Dirty Harry" para só citar alguns dos mais conhecidos. Se dúvidas houver, é porque não vimos todos o mesmo filme!
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
A Quadrilha Selvagem - Edição Especial (Pontuação: 10)
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O Fim do Velho Oeste!, 2009-11-23
Amiga Isabel: em relação a "Spartacus" do "nosso amigo mútuo "Stanley Kubrick, eu também gosto do filme que já vi inúmeras vezes e vejo-o sempre com renovado agrado. Como já percebi (e ainda bem que assim é!) és uma cinéfila como eu e como tal queria fazer-te um convite: sugeria-te que fosses ao facebook e me tentasses encontrar por lá (estou com o mesmo nome com que assino estes comentários) e onde, caso queiras poderiamos falar sobre este gosto comum: o cinema, ou então podes sugerir outro meio de mantermos estas nossas conversas. Que tal aceitas?

O western foi, tal como o musical, o género mais emblemático da história do cinema e tanto um como o outro são incontornáveis na sua história e do western vieram algumas grandes obras-primas da sétima arte. "A Quadrilha Selvagem" é um desses exemplos.
Em 1913 um bando de foras-da-lei apercebe-se que os seus tempos do velho oeste estão com os dias contados e que é chegada a altura de arrumar as botas. Decidem então fazer um último e arriscado assalto e sair em estilo...mas as coisas não vão correr tão bem como eles pensavam e se calhar a reforma não está nos seus horizontes.
O realizador Sam Peckinpah, autor de obras como "Major Dundee" (1965), "Cães de Palha" (1971), "Tiro de Escape" (1972) "Cross of Iron" (1977) ou "Convoy - Comboio dos Duros" (1978) para citar apenas as mais conhecidas, tinha duas imagens marcantes na sua obra: uma predilecção pelos perdedores ou o simples zé-ninguém. Daí que alguns dos filmes atrás referidos tenham como personagens principais bandidos, ladrões ou mesmo o simples vencido da vida que apenas anda por aí ao sabor do vento; a outra característíca de Peckinpah era a violência estilizada, sendo esta, mesmo a imagem de marca do realizador. Em dois dos seus filmes mais conhecidos, o realizador filma a violência em modos distintos; Neste "Quadrilha Selvagem", a violência é poética e a cena do confronto final entre a quadrilha e o bando do general Mapache é carregada de simbolismo onde a morte é o supremo acto de libertação duma vida que, para a quadrilha, estava acabada; atente-se nos momentos finais do filme onde Deke Thornton (Robert Ryan) caminha por entre os cadáveres dos combatentes e detem-se junto do dos seus ex-companheiros: a sua expressão diz tudo sobre a inveja que sente por não ter tido o mesmo destino deles e libertar-se assim da vida que escolheu. Já em "Cães de Palha", outra das suas obras polémicas, no último terço do filme um simples professor de matemática (Dustin Hoffman) tem de defender a sua casa, a sua honra e de sua mulher contra os ataques dos habitantes duma vila na Inglaterra rural. A violência é extrema e nada tem de poético, pelo contrário, é o único meio disponível para defender a honra, outro valor muitas vezes presente na obra de Peckinpah.
Polémico e sempre em conflito, Peckinpah veria a maior parte dos seus filmes serem censurados e cortados pelas distribuidoras sob pena de não serem distribuídos no circuito comercial. "Major Dundee" foi dos primeiros filmes de Peckinpah a ser amputado de um considerável número de cenas, tornando o filme confuso e incompleto. Felizmente foram recuperadas em 2005 e re-inseridas no filme. Outro exemplo desta tendência em relação à obra do realizador é "Duelo na Poeira" (1973) onde o simples acrescento das cenas amputadas antes da estreia, o tornam numa obra completamente diferente e a descobrir.
Com a "Quadrilha Selvagem" passou-se o mesmo, mas ainda hoje a discussão permanece: com uma duração inicial de 225 minutos, achou-se que era enorme, o filme seria remontado pelo estúdio para uma duração de 190 minutos, mas ainda assim, era longo demais, então, Peckinpah resolveu ele mesmo montar o filme para 134 minutos, versão que foi estreada e exibida durante anos e tida como a versão real do filme, inclusive pelo próprio realizador. Só que em 1995, a familia autorizou o lançamento daquela que ainda hoje é a versão em circulação. Incorporando cerca de 11 minutos de cenas importantes para a história. Chamou-se a versão original do realizador e contém algumas das mais violentas sequências de acção da história do cinema.
Aquilo que Sergei Eisentein inventou, que lhe granjeou o título de "Pai da Montagem" e está patente em "Couraçado Potemkin" (1925), "Alexander Nevski"(1938) ou "Ivan - O Terrível" (1944), para citar os melhores e mais conhecidos exemplos da arte de montagem, foi um dos grandes trunfos do realizador americano em toda a sua obra.
Em "A Quadrilha Selvagem", Peckinpah mostrou como é que se conta uma história mostrando, desde a cena inicial com as crianças a incendiarem escorpiões vivos antes do assalto ao banco, passando pelo assalto ao comboio até chegar à já citada cena final do tiroteio entre a quadrilha e os homens do general, violência poética, visualmente estimulante graças á fotografia de Lucien Ballard, colaborador habitual do realizador, à utilização de montagem paralela e técnica de "slow motion" e por vezes cruzando as duas, Peckinpah filmou aquele que seria o último grande clássico do oeste... onde se ficou a perceber que a morte dos membros da quadrilha significava não só morte do velho oeste como nos fora dado a conhecer durante décadas, mas também a morte e o fim de um género cinematográfico de que "Imperdoável" (Clint Eastwood, 1992), como escreveu a Isabel, é o mais significativo e dignificante epílogo que alguma vez se poderia escrever.
Verdadeiramente um clássico, de um género, obra-prima de um realizador e um filme que , 40 anos após a sua estreia, continua a ser absolutamente incontornável na história do cinema.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Barry Lyndon (Pontuação: 10)
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Os Quadros de Stanley Kubrick!, 2009-11-21
Pegando no último comentário de Isabel, com quem, de resto, concordo na maior parte dos seus comentários, sobre "Eyes Wide Shut" onde ela diz que esteve indecisa até à última se escrevia sobre este ou sobre "Barry Lyndon". Tudo isto para dizer que sobre este génio do cinema só me falta comentar este título, uma vez que "Spartacus" (1960) não se considera um filme de Kubrick, porque ele foi uma escolha de Kirk Douglas (Produtor do filme) depois do realizador original ter sido despedido.
Redmond Barry é um jovem Irlandês sem eira nem beira, vive com a mãe viúva e apaixona-se por uma prima que, no entanto, está prometida a um capitão do exército Inglês. Não suportando ser trocado por um oficial britânico, Redmond desafia-o para um duelo e mata-o sendo obrigado a fugir do país começando assim a sua odisseia por uma europa turbulenta em busca da sua própria identidade.
Kubrick sempre quis fazer um filme histórico. Uma biografia de napoleão foi um projecto que ele acarinhou durante muitos anos mas que nunca lhe foi possível realizar porque nunca obteve financiamentos para isso. Herdou "Spartacus" (1960) de Anthony Man, depois deste ter sido despedido pelo produtor do filme. Mas a sua associação a "Personas non gratas" em Hollywood como Kirk Douglas, ou Howard Fast, autor do livro em que se baseia o filme, restringiram-lhe a sua liberdade criativa e levaram-no a ter problemas na distribuição da obra em terras americanas. "Barry Lyndon" acabou por ser a sua única obra histórica.
Baseado num romance de William Makepeace Thackeray, "Barry Lyndon" passa-se no século XVIII, um período conturbado na história da europa assolada por guerras, palco onde Redmond se vai tentar afirmar. De soldado britânico a jogador de cartas profissional e por fim Lord, mercê de sua inteligência e de um ou outro golpe, umas vezes de sorte outras de azar, a ascensão de Barry é quase meteórica, ao contrário do filme que avança lentamente, sem nunca ser monótono, graças ao perfeccionismo técnico a que a obra foi sujeita.
Produção sumptuosa e uma reconstituição histórica rigorosa, aliados a uma fotografia nada menos que fabulosa fazem de "Barry Lyndon" uma obra que não envelhece com o tempo...Kubrick tinha esse dom: fazer filmes que nunca passam de moda!
A sua realização é, como sempre, genial e inventiva (as marcas fortes de Stanley Kubrick), sem mácula. Utilizando, como já o fizera em "Laranja Mecânica"(1971), uma narrativa em voz off, Kubrick consegue, em tons irónicos por vezes, dramáticos noutras, ilustrar o filme com imagens e cenas que deliciam qualquer cinéfilo que se preze de o ser. Cada imagem é como se fosse uma tela onde o artista (neste caso Stanley Kubrick) pinta (filma) criando cenas de uma beleza tal que faziam inveja a qualquer pintor ou fotógrafo.
Em "Barry Lyndon" Kubrick tira partido de toda a luz natural não usando para o efeito nenhum holofote para iluminar os cenários, nem mesmo nas cenas nocturnas ou de interiores onde usou a luz de velas para filmar o que dá um efeito real, mas ao mesmo tempo sobrenatural e grotesco, das personagens em cena. Mais um ponto a favor do realizador que ao utilizar esta técnica inovadora, elevou a história da fotografia a outros patamares.
Para interpretar Redmond Barry, Kubrick chamou Ryan O'Neal, conhecido pelo seu papel em "Love Story" (Arthur Hiller, 1970)um dos filmes-referência da década de 70 do século passado. História de amor entre um rapaz de classe social alta e uma rapariga de baixa condição social e os problemas que se lhes deparam. Ryan O'Neall junta à sua carreira um papel que lhe deu alguma projecção mas que nunca passou disso.
Para o papel de Lady Lyndon, o realizador foi buscar uma ex-top model da revista "Vogue" para a qual Kubrick trabalhara no inicio da sua carreira como fotógrafo e onde conhecera a modelo. Usando a sua beleza algo melancólica, Kubrick consegue alguns dos mais belos planos jamais fotografados: A cena em que Lady Lyndon, completamente abstraída da realidade toma banho semi-nua, ladeada pelas suas duas criadas é duma beleza plástica dificil de igualar.
Utilizando uma banda sonora maioritáriamente de compositores como Haendel, Schubert,Vivaldi, Bach ou Mozart, Kubrick consegue a melhor banda sonora para o seu filme e conferir-lhe o realismo necessário para o tornar credível ao olhar mais incrédulo que possa surgir.
O trabalho de Kubrick neste filme é, como habitualmente, irrepreensível. Já não hà adjectivos que o possam qualificar, apenas podemos repetir o que já foi dito por tanta gente que comentou e comenta a sua obra: um génio absoluto e que muita falta faz ao cinema de hoje.
De "Barry Lyndon" retemos algumas cenas que são absolutamente inesquecíveis: O prólogo onde a voz off introduz a obra, onde vemos um duelo de pistola e a realização nos enquadra na cena; As cenas de batalha em que Redmond se destingue e onde são apresentadas ambas as perpspectivas
do campo de batalha; A cena do funeral de Byran onde o trabalho de realização e a banda sonora se fundem num momento sublime de cinema: um grande plano dum caixão vai abrindo gradualmente e o tema "Sarabande " de Haendel faz as honras daquela que será talvez a imagem mais marcante de todo o filme: o cortejo fúnebre; O confronto entre Lord Bullington e Barry Lyndon em que o brilhantismo de realização torna o duelo no mais longo da história do cinema. São cenas assim que tornam este filme num momento único.
Pode-se também dizer que este filme não surgiu por acaso na filmografia do realizador. Ao aparecer a seguir a "Laranja Mecânica", Kubrick, que nesse filme delapida um futuro pouco radioso aos seres humanos, quis com "Barry Lyndon", além de fazer o seu filme histórico, dizer que a estupidez humana pode levar àquela situação; por outras palavras, quis dizer que, se a humanidade não aprender com o seu passado (aqui o séc.XVIII, que foi, em termos de guerras, tão mau, como o foi o séc.XX),poderemos muito bem estar perto do tempo da acção de "Laranja Mecãnica". Kubrick era isto mesmo: um visionário capaz de olhar para o passado e criticá-lo assim em "Barry Lyndon", mas também olhar para o futuro e torná-lo tão credível como o presente. Tal capacidade é previlégio só de alguns!
Nomeado para sete Óscares da Academia, "Barry Lyndon" venceu quatro, todos de categoria técnica incluindo o de Melhor Fotografia que seria um verdadeiro atentado se tal prémio não viesse parar a este filme.
Filme tantas vezes referenciado na obra do realizador, mas algo ignorado no seio da sua filmografia. Será que se pensou que este filme, tal como "Eyes Wide Shut" (Stanley Kubrick, 1999), nunca seria feito tal era o desagrado do realizador nesta época? nunca o saberemos. O que sabemos é que "Barry Lyndon" é, e será sempre, um filme de Stanley Kubrick, incontestávelmente um dos melhores realizadores de todos os tempos, cuja obra continuará a ser um manancial da sétima arte.
A não perder.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Um Violino no Telhado (Pontuação: 10)
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Porque é que já não se fazem filmes assim?, 2009-11-15
Tradicionalmente (já o escrevi) o teatro, particularmente a Broadway, fornece à sétima arte motivos e ideias para filmes. "Um Violino no Telhado" é mais um desses exemplos.
Tevye é leiteiro e judeu que vive na aldeia de Anatevka na rússia em 1905. Trabalha àrduamente, quase de sol a sol para que nada falte à mulher e às suas cinco filhas. No entanto, no país, sopram ventos pré-revolucionários que mais tarde ou mais cedo irão chegar à aldeia e alterar radicalmente as vidas dos seus habitantes.
Depois de um fabuloso prólogo e antes do genérico inicial (um lindo amanhecer ao som do violino de Isaac Stern) em que Tevye (magnifica interpretação de Topol), ao som do tema "tradition" nos vai apresentado figuras e factos da sua aldeia, faz a sua distribuição diária de leite, já o espectador se sente familiarizado com as personagens que desfilam no écran, graças à realização cuidada e certinha de Norman Jewison, autor de uma vasta filmografia onde se incluem títulos como "No Calor da Noite" (1967), thriller policial com contornos racistas e vencedor do Oscar de Melhor Filme do Ano, "The Thomas Crown Affair" (1968), um policial detectivesco tipo gato e rato e objecto de um remake em 1999 com Pierce Brosnan, "Jesus Christ Superstar" (1973) nova adaptação de uma peça musical da Broadway, "Rollerball - Os Gladiadores do séc.XXI" (1975) ficção científica em jeito de filme-denúncia sobre o sistema governativo, também objecto de um remake em 2002...de muito mau gosto!
Durante cerca de três horas, Jewison filma e ilustra, com o saber de um realizador formado na escola da televisão, tradições do povo judeu com cenas e canções como "Sabbath Prayer" (durante o sabbath); a celebração do contrato de casamento entre a casamenteira e Golda, mulher de Tevye e entre este e Lazar Wolf; a cerimónia de casamento com a fabulosa dança das garrafas (com as personagens a cantar "Sunrise, Sunset"); ou a inesquecível canção "If I Were a Rich Man" em que Tevye canta e dança no estábulo entre os seus animais. Consegue fazer-nos rir em cenas como as conversas de Tevye com Deus; Entramos no dominio do sobrenatural na sequência do sonho (inventado) de Tevye. Mas também consegue deixar-nos pouco à vontade em cenas como a carga da polícia sobre os convidados na festa do casamento onde, num fabuloso grande plano, vemos um Tevye incrédulo a olhar para o céu como que a questionar Deus sobre o porquê daquela carga; ou toda a sequência do êxodo de Anatevka.
"Um Violino no Telhado" foi um enorme sucesso nos teatros em todo o mundo onde foi apresentado, inclusive a versão portuguesa da peça foi um estrondoso sucesso neste país de brandos costumes mas muita tradição neste campo. O filme foi nomeado para oito Óscares da Academia, venceu três: Melhor Som, Melhor Fotografia e Melhor Banda Sonora Adaptada para John Williams que, anos mais tarde, viria a compor as bandas sonoras de sucessos como "Star Wars", "Tubarão", "Salteadores da Arca Perdida" ou "E.T." entre muitas outras.
Para Norman Jewison, "Um Violino no Telhado" foi um grande impulso para a sua carreira durante a década de 70 e ainda hoje é considerado um dos seus melhores filmes. Para o público cinéfilo e que gosta destas coisas, fica a pergunta: porque é que hoje já não se fazem filmes assim?
subscrevemos na íntegra.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
A Máquina do Tempo (Pontuação: 7)
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Os Limites de Viajar no Tempo!, 2009-11-10
Desde tempos imemoriais que o homem sempre quis viajar no tempo. Visitar o seu passado, corrigir o que estivesse errado na sua vida e talvez melhorá-la. Em 1895 H.G.Wells escreveu uma obra que iria revolucionar a ficção cientifíca e pô-la na rota do cinema que não tardaria a transformá-la em filme.
Alexander Hardtegan, inventor do séc XIX, sofre uma perda irreparável: durante um assalto, a sua namorada é assassinada à sua frente. Sem conseguir lidar com isso e culpando-se do acontecimento, ele vai inventar uma máquina de viajar no tempo para tentar emendar o que aconteceu e quando o faz, um acidente leva-o ao futuro e a uma aventura inesperada.
"Máquina do Tempo", é uma nova versão dum clássico de 1960. Apesar de realizado por Simon Wells, bisneto do escritor H.G.Wells, co-realizador de filmes de animação como "An American Tail: Fievel goes West" (1991) ou "Princípe do Egipto" (1998), ele não consegue dar o toque de magia que George Pal conseguiu no filme original. Wells tinha os meios e o conhecimento necessários para que o seu filme fosse, pelo menos, equivalente ao original, mas tal não acontece e fica-se pela mediania. Enquanto George Pal foi fiel à obra, dando imagens às palavras do escritor, Wells evita comparações com o filme de Pal ou com a obra do seu bisavô. O seu filme pretendeu ser não um remake, mas sim uma outra versão inspirada no livro. Ficou-se mesmo pela pretensão.
Bons efeitos especiais, os quais o realizador poderia ter explorado melhor, apesar de os ter utilizado em algumas cenas bem conseguidas como o da memória holográfica na Nova York do futuro, ou na destruição da mesma cidade, ou ainda na viagem até ao ano 802,701 e ao que resta da civilização. Aqui, é onde realmente o filme se perde e se estraga por completo. Fica-se com a ideia de que Wells poderia ter feito muito melhor e nem a presença de Jeremy Irons consegue salvar o filme da banalidade mais vista da ficção cientifíca. Pal, em 1960, com menos meios, conseguiu filmar um futuro mais credível do que esta versão moderna.
O livro de H.G. Wells já serviu de inspiração a várias outras variações sobre viagens no tempo, umas melhores que outras: O já citado original de George Pal; as fabulosas viagens no tempo para a frente e para trás a bordo de um DeLorean relatadas em "O Regresso ao Futuro" (Robert Zemeckis 1985-90); o fraco "Experiência de Filadélfia (Stewart Raffill,1984) supostamente baseado em factos verídicos ocorridos na IIª Guerra Mundial; ou "Somewhere in time"(Jeannot Szwarc,1980) onde a hipnose é usada para permitir uma viagem no tempo; os originais "Passageiros do Tempo" (Nicholas Meyer, 1979) onde é o próprio H.G.Wells que viaja até ao presente em perseguição de Jack, o Estripador; "Contagem Final" (Don Taylor, 1980) em que o porta-aviões Nimitz é transportado no tempo para a véspera do ataque a Pearl Harbor; ou ainda "Star Trek IV - o regresso a casa" (Leonard Nimoy, 1986) onde a tripulação da Enterprise tem que viajar até ao século XX para tentar salvar a terra do século XXIII.
"Máquina do Tempo" acaba por ser um filme bom, onde nos apercebemos que poderia ter ido mais longe tendo em conta as potencialidades do livro em que se baseia e do que hoje se pode fazer em termos de cinema.
Embora prefira o original de George Pal e o livro de H.G.Wells, este filme não deixa de ser interessante e uma boa diversão para uma tarde chuvosa ou um serão em familía.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Laranja Mecânica (Pontuação: 10)
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A Visão Profética de Stanley Kubrick!, 2009-11-06
Em 1948 um escritor inglês tinha um texto, para o qual não tinha título. Falava de um mundo futurista com uma ordem totalitária no qual falar, pensar ou agir tinha que ser feito com todo o cuidado pois o "Big Brother" estava sempre vigilante e punia todos os que se revoltassem contra o sistema. George Orwell assim se chamava o escritor, invertendo os últimos dois digítos da data, obtém o título e torna a obra, à data, profética. Entre o livro e a data surgiu "Laranja Mecãnica", onde o mundo imaginado por Orwell adquire uma outra realidade na escrita de Anthony Burgess e no olhar perfeccionista de Stanley Kubrick.
Inglaterra, algures num futuro próximo, Alex DeLarge e os seus companheiros vagueiam ao sabor da noite espancando, violando e roubando quem se lhes cruza no caminho. Um dia Alex é apanhado pelas forças de segurança, feito prisioneiro e mais tarde será voluntário para um tratamento experimental desenvolvido pelo governo para lidar com os problemas da criminalidade. mas nem tudo corre como Alex pensara e o resultado será imprevisível.
Brilhantemente realizado por Stanley Kubrick , "Laranja Mecânica" é baseado num livro de Anthony Burgess. Utilizando uma linguagem criada de propósito para o livro, Kubrick consegue, no filme, transmitir todo o sarcasmo presente nas palavras proferidas por Alex, quer em voz-off, quer nos próprios diálogos entre as personagens. O texto de Burgess parece trancrito na integra para a tela fazendo com que aquele rápidamente se tornasse num best-seller na década de 70 do século passado e termos como ultra-violência viessem a fazer parte de alguns dicionários.
É sabido que Kubrick nunca gostou de sequelas (nem sequer gostava do termo). Na década de 80 do século passado, o realizador recusou fazer mesmo "2010" a continuação do seu mitíco "2001:Odisseia no Espaço" (1968), baseado no livro do mesmo título de Arthur C.Clarke, porque entendeu que nada mais havia a dizer sobre o assunto; o filme foi feito por Peter Hyams em 1984 e o resultado foi...para esquecer!
Mas hà algo de "2001" em "Laranja Mecânica": atente-se na cena final de "2001" quando o bébé abre os olhos e olha na direcção da terra ao som da fabulosa fanfarra de Richard Strauss "Assim Falava Zaratrusta" e o inicio de "Laranja Mecânica" com o grande plano do olhar de Alex: este pode muito bem ser entendido como uma continuação daquele sem, no entanto, o ser efectivamente. Stanley Kubrick alguma razão terá tido para começar "Laranja Mecãnica" com esse fabuloso grande plano, sob uma voz off, que depois vai recuando progressivamente e vamos vendo o local onde Alex e os seus compinchas se encontram...o resto é história!
Malcolm McDowell interpreta Alex, o delinquente que gosta de ultra-violência, violações e Beethoven (excelente aproveitamento musical de peças do compositor!). O actor é absolutamente fantástico na sua composição. Foi a sua interpretação do jovem aluno rebelde numa instituição privada de ensino em Inglaterra no filme "If..." (Lindsay Anderson, 1968) que chamou a atenção do realizador que viu nele o seu Alex. Aliás toda a carreira do actor girou sempre em torno desta personagem, porque, se exceptuarmos "Calígula" (Tinto Brass, 1979) onde dá vida ao imperador romano, nada mais podemos acrescentar à sua carreira que seja sufucientemente relevante.
Usando e abusando dos grandes planos que depois se tornam médios planos até formarem uma imagem de composição (ver por exemplo a fabulosa cena nocturna do espancamento do velho no tunel ou a já citada cena inicial), Stanley Kubrick filma cenas inesquecíveis e de uma beleza plástica acima de qualquer reparo: além das já citadas cenas, ver por exemplo o espancamento do escritor e a violação da senhora dos gatos; as cenas da prisão governamental ou as cenas do tratamento a que Alex é submetido com a utilização da música de Beethoven: absolutamente violento e ao mesmo tempo irónico. Estamos portanto perante um "Kubrick vintage!"
Obra-prima intemporal, "Laranja Mecânica", continua tão actual como quando estreou. É um filme que nos convida a refectir sobre o seu tempo e também ( e este é o grande feito do filme!) nos obriga a uma reflexão sobre o tempo em que vivemos. Impressiona ver o que o realizador conseguiu ver antes do tempo e a maneira como transpôs a sua visão para o grande écran.
Inesquecível sempre e obrigatório também.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Valquíria (Pontuação: 9)
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Não é o filme de guerra convencional!, 2009-11-03
Existem, de uma maneira geral, poucos filmes que abordem outras temáticas de IIªGuerra Mundial, como por exemplo a que se retrata em "Valquíria": uma das mais famosas tentativas de assassinato de Hitler.
Em 1943, alguns altos comandos alemães, planeiam assassinar Adolf Hitler, por fim ao regime nazi e tentar terminar a guerra cuja vitória cada vez mais tende para o lado aliado.
Interpretado e produzido por Tom Cruise, que fez questão de escolher todo o elenco, que é de luxo: Kenneth Branagh, actor e realizador de obras importantes como "Henry V" (1989), ou "Hamlet" (1996), como Henning von Tresckow, o homem que escolhe Claus von Stauffenberg para planear o assassinato de Adolf Hitler, tem aqui uma prestação algo secundário mas ao nível do seu melhor; a aconpanhá-lo temos Bill Nighy, no papel do general Friedrich Olbricht, principal conspirador e apoiante de Stauffenberg desde o primeiro momento, um excepcional actor inglês, muito habituado a papéis secundários, recentemente vimo-lo como Davy Jones nas 2ª e 3ª partes dos "Piratas das Caraíbas" (Gore Verbinski, 2006-07); Tom Wilkinson, no papel de General Friedrich Fromm, cuja crença na conspiração de Stauffenberg depende de outros factores, outro produto da melhor escola britânica; Terence Stamp, veterano actor que aqui faz de Ludwig Beck, principal angariador de conspiradores para a causa de Stauffenberg.Todo o elenco está muito bem escolhido. Rodeado de tanta gente boa, Cruise também não poderia deixar os seus créditos em mãos alheias. A sua interpretação do Coronel Claus von Stauffenberg, responsável pelo planeamento de toda a operação Valquíria, é fabulosa, talvez um dos seus melhores desempenhos, ao nível de um "Nascido a 4 de Julho" (Oliver Stone, 1989); de " A Guerra dos Mundos" (Steven Spielberg, 2005) ou de um "O Último Samurai" (Edward Zwickie, 2003). O actor é absolutamente convincente na sua interpretação.
Realizado por Bryan Singer, autor do excepcional thriller policial "Os Suspeitos do Costume" (1995); "X-Men e X-Men 2" (2000 e 2003); "Superhomem - o regresso"(2006). Último nome a chegar ao filme e mais uma escolha pessoal de Tom Cruise, graças ao sucesso obtido junto do público e critíca por algumas das suas obras. O seu trabalho em "Valquìria" é o de um mero artesão que filma bem o material que lhe é fornecido. O argumento é escrito por Christopher McQuarrie, um dos seus colaboradores habituais e, graças a uma montagem rápida e correcta de John Ottman, outro dos seus colaboradores habituais, "Valquìria" rápidamente se torna numa obra vibrante, interessante e, como disse PAPN, uma lição de história, que capta o interesse desde o primeiro momento, para quem gosta destas coisas. O que "Valquíria" retrata é um período pouco explorado pelo cinema, mas já várias vezes abordado pela televisão; aqui destaco principalmente "War and Remembrance" (Dan Curtis, 1988) onde a "Operação Valquíria" é abordada com algum pormenor e rigor histórico.
É uma obra a reter e a revisitar sempre que se queira ir mais além do filme convencional sobre a IIª Guerra Mundial.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
O Bom, o Mau e o Vilão (Pontuação: 10)
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Obrigado Sergio Leone!, 2009-10-16
O western, assim como o musical, foram os géneros mais queridos do cinema. O western, inclusive, chegou a ser "importado" para a europa, pela mão de Sergio Leone criando assim as raízes de um sub-género intitulado "western spaghetti" que viria a obter um considerável sucesso tanto na europa como nas terras do tio Sam.
É a história de três homens que procuram um tesouro que está enterrado algures num cemitério. Cada um deles sabe uma parte da localização do tesouro, pelo que vão estar dependentes uns dos outros para lá chegar. Sem olhar a meios para obter os fins, os três vão tentar chegar ao local onde os aguarda aquela recompensa através dum país devastado pela guerra civil.
Realizado por Sergio Leone, "O Bom o Mau e o Vilão" é, considerado pelo realizador o último filme da chamada "trilogia dos dólares", sendo os dois primeiros "Por um punhado de dólares" (1964) e "Por mais alguns dólares" (1965). Desde o primeiro filme que ficou como marca do realizador os grandes planos de rostos e das armas antes de um duelo e também grandes sequências sem um único diálogo. Não é, portanto, de estranhar que o inicio deste filme seja precisamente um grande plano de rostos de cowboys, das suas armas e de uma cidade em ruínas e sem um único diálogo, antes do duelo onde nos será apresentado o primeiro protagonista do trio central da história: a imagem, depois do duelo, congela e surge o título da personagem no écran; é um achado fabuloso de Leone e que funcionará da mesma maneira para as outras duas personagens do filme. Só então é que o filme começa verdadeiramente.
Por ser considerado o pai do sub-género western-spaghetti, Leone enche o écran de constantes referências aos filmes americanos de John Ford a Howard Hawks e toda a simbologia do velho oeste está presente na obra do realizador desde "dólares" até "Aconteceu no Oeste" (1968).
Sergio Leone não trouxe dos Estados Unidos só o saber como fazer, trouxe também mão-de-obra para edificar o sub-género no velho continente. Com ele vieram Eli Wallach (o Vilão), um eterno secundário que já brilhara em outro western chamado "Os Sete Magnifícos" (John Sturges, 1960) remake americano dessa obra-prima do cinema chamada "Os Sete Samurais" (Akira Kurosawa, 1954); Lee Van Cleef (o Mau), actor sempre associado a papéis de vilão e que teve, com Leone, o momento mais alto da sua longa carreira; Clint Eastwood (o Bom), na altura um obscuro actor que, ao ir para itália filmar com Leone a "trilogia dos dólares", passou do relativo anonimato a estrela de cinema e posteriormente viria a tornar-se uma referência obrigatória no panorama do cinema mundial.
Majestoso, visualmente estilizado "O Bom, o Mau e o Vilão"avança num crescendo de acção e tiros desde a já referida sequência inicial até ao final onde o filme atinge o seu climax: o duelo a três no cemitério onde Sergio Leone, chamando a si todo o seu conhecimento, homenageia o western, com a excepcional banda sonora de Ennio Morricone como pano de fundo, num misto de mito e realismo.
Filme ambicioso, foi, indiscutivelmente, a obra mais inovadora que o sub-género western-spaghetti viria a conhecer. Muitas vezes referida, imitada, mas nunca igualada, tendo sido até recentemente homenageada em "Este País não é para Velhos" (Joel e Ethan Coen, 2007).
Não querendo tirar o mérito da obra dos irmãos Coen que até venceu 4 Óscares da Academia, incluindo o de Melhor Filme do Ano, o original de Sergio Leone permanece como um filme intemporal, obra-prima do género em que se insere.
Imperdível!
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Vertigem Azul - Versão do Realizador (Pontuação: 8)
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Azul Profundo!, 2009-10-12
O mar sempre foi uma fonte de inspiração para qualquer realizador. Muitos são os filmes cujas primeiras cenas são o mar. Na maioria dos casos é como se de um regresso a casa se tratasse. "Vertigem Azul" também sofre dessa tendência.
Jacques e Enzo foram criados juntos numa aldeia situada à beira do mar Mediterrâneo. Mesmo não sendo grandes amigos, partilhavam a mesma paixão pelo mar. Um dia, porém, um acidente faz com que os dois percam o contacto durante anos. Quando se reencontram, Enzo é campeão de mergulho livre, enquanto Jacques se tornou treinador de golfinhos e colaborador ocasional dos homens da ciência. Entre os dois nasce uma grande concorrência não só pelo título de campeão mundial de mergulho livre, como também pelo interesse de uma mulher.
Realizado por Luc Besson, autor de, por exemplo "O Último Combate"(1983) sobre os devastadores efeitos que uma guerra nuclear faz aos seres humanos, privando-os da fala, vencedor de vários prémios de cinema fantástico nomeadamente no festival de Avoriaz e no Fantasporto; "Subway" (1985) sobre a população que habita o metro de Paris fora de horas; "Nikita" (1990) sobre os assassinos treinados por organizações secretas e que depois foi objecto de um remake inferior chamado "Assassina" (John Badham,1993); "Leon" (1994) primeiro filme americano de Besson e grande sucesso de bilheteira; ou ainda "O Quinto Elemento"(1997) considerado o filme mais caro do cinema europeu, "Vertigem Azul", juntamente com o documentário "Atlantis" (1991) que o realizador fez sobre a vida marinha, são os projectos que Besson considera pessoais pois estão relacionados com a sua infância quando percorria o mundo com os pais que eram instructores de mergulho. O mar era a sua casa e reflexo disso são as primeiras imagens do filme: O Mediterrãneo filmado a preto e branco com a lindíssima banda sonora de Eric Serra (colaborador habitual do realizador) como pano de fundo, assim como todo o prólogo passado numa ilha grega onde somos apresentados à personagem de Jacques Mayol. Besson filma o seu mergulho intensamente como se dele próprio se tratasse e estabelece assim o mote do filme. Todas as sequências subaquáticas estão excepcionalmente bem filmadas e de maneira a que o espectador se sinta transportado cada vez que os protagonistas se lançam na sua vertigem pelo azul do mar.
Contando com Jean Reno (outro colaborador habitual do realizador ), um dos actores europeus mais requisitados para produções internacionais, no papel de Enzo Molinari. O actor tem aqui um dos seus papéis mais importantes e também um dos seus preferidos, apesar da personagem ser a de um homem obcecado pela ganância de continuar a ser o campeão mundial de mergulho livre sem olhar a meios para o manter. Jean Marc Barr e Rosanna Arquette completam o trio à volta do qual vai girar toda a história de "Vertigem Azul".
Magnificas cenas como a do porto Italiano em que Enzo salva um homem de morrer afogado; as cenas do trio em Taormina; os testes a que Jacques é submetido no gelo ou ainda a cena final no mar entre Jacques e Enzo, fazem de "Vertigem Azul" um drama muito realista e um dos melhores filmes de Luc Besson.
Lançado no cinema em duas versões: uma de 130 minutos que fez carreira nos cinemas um pouco portodo o mundo. Só depois do sucesso do filme é que o realizador decidiu lançar a sua versão de 162 minutos contendo inúmeras sequências inéditas onde se explica um pouco melhor o relacionamento de Jacques Mayol com os golfinhos ou onde se pode apreciar melhor a competição entre as duas personagens. O filme ganha uma nova dimensão e a vertigem torna-se muito mais azul. Felizmente em Portugal está editada a versão do realizador e o espectador só fica a ganhar com isso.
Para quem quiser desfrutar de um filme e de uma experiência diferente. É só deixar-se envolver pela música e mergulhar nesta vertigem.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Nascido Para Matar (BLU-RAY) (Pontuação: 10)
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O Vietname segundo Stanley Kubrick!, 2009-10-11
Falar de Stanley Kubrick é falar de Cinema. A sua obra, embora curta em termos de filmes, foi de importância capital para o cinema. É uma obra destinada a ser estudada e analisada por todos quantos se interessem pela sétima arte.
"Full Metal Jacket", penúltimo filme do realizador, acenta que nem uma luva na sua carreira e insere-se lindamente na lista dos filmes mais importantes sobre a guerra do Vietname.
Em Parris Island na Carolina do Sul um grupo de jovens Marines começam o seu treino para depois serem enviados para o Vietname para reforçar o contingente Norte Americano que por lá se bate. A comandá-los está um impiedoso Sargento-Instructor decidido a torná-los verdadeiras máquinas de matar.
Realizado com o habitual perfeccionismo milimétrico e obsessivo de Stanley Kubrick, onde qualquer movimento de camâra, qualquer plano ou até a própria banda sonora têm uma razão para ali estar e venha daí quem disser o contrário!
Dividido em duas partes distintas, embora se completem no total, "Full Metal Jacket" começa com os novos recrutas a rapar o cabelo por completo dando inicío ao seu processo de deshumanização que decorrerá ao longo de toda a recruta, sob a mão impiedosa do Sargento-Instructor Hartman (R.Lee Ermey), principal executor dessa mesma deshumanização, castigando e humilhando constantemente o soldado Pyle (Vincent D'Onofrio), culminando na sequência do castigo infligindo a este durante a noite pelos seus próprios companheiros de camarata. O soldado Pyle acabará, finalmente, por fazer uso dessa mesma deshumanização, na magnifica sequência nocturna da última noite dos agora soldados no campo de intrução de Parris Island. Vemos, nessa cena, na expressão facial de Pyle e no seu olhar, brilhantemente captados pelo realizador, o regresso de Alex de "A Laranja Mecânica" (Stanley Kubrick, 1971). Simplesmente aterrador.
A segunda parte do filme vai encontrar alguns elementos deste pelotão em plena acção no Vietname. Estamos em plena ofensiva de Tet em 1968 e assistimos a um novo pesadelo neste conflito: a guerra urbana. Aqui reside um dos grandes trunfos do filme; ao transferir a acção dos combates da selva habitual para a selva urbana, Kubrick consegue uma originalidade única nunca conseguida em nenhuma outra obra que tenha abordado o Vietname. Filmada em estilo documental, patente nas cenas da progressão das tropas americanas sobre a a cidade de Hue, onde algures vislumbramos um monólito negro (piscadela de olho a "2001:Odisseia no Espaço" ou será o próprio realizador a querer dizer-nos qualquer coisa?), ou ainda no combate nas ruínas da cidade entre o pelotão dos deshumanizados de Hartman e um atirador furtivo que os vai abatendo um a um; esta sequência consegue ser muito mais assustadora que qualquer outra filmada na selva, porque lá, já se sabe o que se espera, aqui o perigo pode espreitar em qualquer prédio, em qualquer esquina, Kubrick consegue aqui um efeito de suspense em filmes de guerra, nunca conseguido em qualquer outra produção do género.
Em termos de interpretações, estas falam por si. Matthew Modine interpreta bem o seu soldado Joker, principalmente quando discute com um oficial o significado e a dualidade da inscrição que tem no seu capacete "Born to Kill" acompanhado do símbolo dos hippies; mas o triunfo do filme vai todo para D'Onofrio e Lee Ermey: as cenas entre ambos estão soberbamente interpretadas (principalment R.Lee Ermey que fora militar antes de ser actor, pelo que só teve que ser ele mesmo e consegue-o perfeitamente); quanto a Vincent D'Onofrio, assustador na sua transformação de jovem imberbe sem inteligência nem ambição até começar a enlouquecer progressivamente e transformar-se no perigoso psicopata que vemos no final da primeira parte, é um verdadeiro "tour de force" do actor e, uma vez mais, magnificamente captado pela lente do realizador.
Último grande filme sobre o Vietname, um conflito que deixou marcas em toda a sociedade americana, "Full Metal Jacket" representou mais um enorme capítulo na grande carreira de um realizador chamado Stanley Kubrick e é também uma obra percorrido na sua totalidade por uma questão com a qual também somos confrontados no final, quando os sobreviventes do pelotão marcham ao som da canção do rato Mickey: quem são afinal os heróis do filme?
Obrigatório!
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Amadeus (Pontuação: 10)
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Obra Genial!, 2009-10-05
Poucos são os filmes que contam uma história fictícia sobre uma personagem real e conseguem chegar ao público, à critíca e obter um enorme sucesso. "Amadeus" foi um desses filmes.
Viena de Aústria, 1823, Antoni Salieri ex-compositor da corte do rei Joseph II, é internado num hospital para doentes mentais após uma tentativa de suicídio. No dia seguinte um padre vem visitá-lo e ouvir a sua confissão no que respeita ao facto de Salieri dizer que matou Mozart um dos maiores compositores de sempre. Terá sido mesmo assim?
Realizado por Milos Forman que já nos dera uma obra-prima de estudo do comportamento humano chamada "Voando sobre um Ninho de Cucos" (1975), uma "trip" de drogas e protestos contra o envolvimento americano no Vietname com "Hair"(1979), ou o mal apreciado "period piece" chamado "Ragtime" (1981). Se "Voando sobre um ninho de Cucos" foi rápidamente considerado uma obra-prima, por ser um dos únicos três filmes em toda a história do cinema a vencer os cinco óscares principais (filme, realizador, actor, actriz e argumento), "Amadeus" não tardaria a seguir-lhe as pisadas no que respeita à classificação de obra-prima, porque o filme é isso mesmo. O trabalho de Forman é simplesmente brilhante. Não hà, no filme, uma cena, um fotograma, uma interpretação que esteja fora do contexto.
Vagamente inspirada em "Mozart e Salieri" de Aleksandr Pushkin, transformada em Ópera por Nikolai Rimsky-Korsakov, que Peter Shaffer viu e onde se inspirou para fazer a peça de teatro que serviria de base ao filme de Forman. Utilizando uma significativa parte de música de Mozart e também de Antonio Salieri, além de outros compositores da época, "Amadeus" resulta numa experiência cinematográfica única. As cenas das Óperas estão brilhantemente encenadas. Estão feitas de modo a que o espectador se sinta transportado para a época e quando assim é, pouco ou nada mais hà a dizer. Devemos apenas sentar e deixarmo-nos envolver nesta experiência.
Sendo baseado numa peça de teatro, o filme teria que ter pelo menos um actor com experiência de palco. Tom Hulce, actor que chamara a atenção de Peter Shaffer ao interpretar um dos papéis da sua peça "Equus" (1977), foi escolhido pelo próprio para interpretar o papel de Mozart e fá-lo com grande convicção. Ao ler-se uma biografia de Mozart, não conseguimos dissociar Hulce daquela personagem irrequieta, um pouco louca, mas genial. O próprio actor também o não conseguiu porque toda a sua carreira no cinema acabou reduzida àquela personagem. Já Antonio Salieri de F.Murray Abraham é outra conversa. O actor é a personagem e a interpretação, aliás muito justamente premiada com o Oscar de Melhor Actor, percorre todo o filme. A sua transformação progressiva desde a curiosidade que move o então Compositor da Corte em querer conhecer o jovem talentoso Mozart, até ao velho amargurado, louco, que, no final do filme, abençoa todos os alienados do hospital, passando pelo ser humano que, corroído pela inveja, declara Deus como seu inimigo por ter dado tanto talento aquela "criatura"(como ele próprio chama Mozart), quando ele (Salieri) apenas desejava servir Deus através da sua música, e que o leva a planear o assassinato do compositor, é verdadeiramente assombrosa, inesquecível mesmo. Ofusca em alguns momentos o próprio Wolfgang Amadeus Mozart e o seu actor. O melhor papel de F.Murray Abraham na sua considerávelmente longa carreira onde nos lembramos também do Inquisidor-Chefe Bernardo Gui de "O Nome da Rosa" (Jean-Jacques Annaud, 1986).
Filme cheio de grandes interpretações e de cenas inesquecíveis como aquela em que Mozart aparece a primeira vez ante o olhar reprovador de Salieri; Ou aquela em que Mozart toca a sua versão da marcha de boas -vindas composta por Salieri; A magnifica cena em que Salier, cheio de inveja, atira um crucifixo para a lareira declarando a Deus "A partir de agora Tu e eu somos inimigos!"; a já citada cena final em que salieri abençoa todos os alienados; inesquecível é também todo o terço final do filme ao som do Requiem a culminar no enterro em vala comum do compositor, "Amadeus" entrou assim na galeria das obras-primas do cinema pela porta da frente. Pena é que o seu realizador nunca mais esteve ao nível desta obra, excepção feita a "Valmont" (1989), outra "periodic piece".
Nomeado para onze Óscares, "Amadeus" ganhou oito incluindo o de Melhor Filme e Melhor Realizador e nesse ano ganhou prácticamente tudo aquilo que havia para ganhar em termos de festivais de cinema um pouco por todo o mundo.
Não se consegue ficar indiferente perante um filme destes. É um filme intemporal e cada vez mais referenciado e, tal como a música de Mozart, permanecerá como objecto de culto.
Genial.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
A Barreira Invisível (Pontuação: 9)
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Um Filme Incompreendido!, 2009-09-29
O mês de setembro marca o 70º aniversário do começo da maior catástrofe do século XX: A II Guerra Mundial. parece-me uma boa ocasião para falar para falar de "A Barreira Invisível".
Em 1943 em plena guerra do pacifico, um pelotão, composto na sua grande maioria por jovens que se haviam voluntariado para a guerra após o ataque a Pearl Harbor, tem por missão capturar a Ilha de Guadalcanal que dará inicio à primeira grande ofensiva dos Estados Unidos contra o Japão.
Baseado no romance autobiográfico de James Jones que combateu no pacifico em 1942-43, filme adapta o livro fielmente. Sendo um livro longo e muito descritivo, o filme torna-se por vezes lento.
A realização é de Terrence Malick, o seu primeiro filme após 20 anos de completo silêncio e apenas o terceiro na sua filmografia, depois de "Noivos Sangrentos" (1973) e "Dias do Paraíso"(1978). A sua realização resulta num filme movimentado, criativo, apoiada numa fotografia bonita e com sequências de acção bem conseguidas, embora nunca atingido a perfeição e o realismo brutal de "O Resgate do Soldado Ryan" de Steven Spielberg surgido no mesmo ano.
O elenco constituído por alguns nomes conhecidos do grande público como Nick Nolte, Sean Penn, Woody Harrelson, George Clooney, John Travolta, John Cusack ou ainda outros menos conhecidos como Jim Caviezel, Ben Chaplin, Elias Koteas, interpreta os seus papéis com realismo e algum "over acting"( principalmente de Nick Nolte) á mistura. Os pensamentos e divagações, que surgem ao longo do filme (a barreira invisível de que fala o título é, afinal, a ténue linha que separa a sanidade mental da loucura; o racional do irracional; o bem do mal),remetendo para essa obra-prima do cinema chamada "Apocalypse Now"(Francis Ford Coppola, 1979) poderão talvez tornar esta experiência de guerra algo monótona, mas quem ler o livro de James Jones perceberá certamente que foi a única maneira de se adaptar um livro tão denso.
O maior problema de "A Barreira Invisível", não é a sua longa duração (quase três horas e boatos hà de que Terrence Malick teria filmado muito mais, o que justifica o facto de alguns actores não partilharem o écran mais do que alguns minutos), também não é a realização porque Malick constroi um filme intenso. O problema está no facto de ter aparecido depois do filme de Spielberg. Apesar de ambos serem filmes sobre a mesma guerra, o cenário é diferente; enquanto um tem como cenário a europa; o outro passa-se no pacifico e aí poderia estar a diferença, mas assim não foi entendido e sendo dois filmes versando o mesmo conflito, ambos tendo uma duração longa e contando a história de um pelotão, embora em missões diferentes e cenários de guerra diferentes, um tinha que necessáriamente ficar a perder quando comparado com o outro: "A Barreira Invisível" perde quando comparado com "O Resgate do Soldado Ryan". Apesar das suas sete nomeações para os Óscares, acabou por não vencer nenhuma categoria; enquanto que "Ryan" foi nomeado para onze Óscares, ganhou cinco, incluindo o de Melhor Realizador.
Técnicamente competente, embora não sendo brilhante, "A Barreira Invisível" acaba por ser um filme que ainda tem muito para se descobrir, e essa descoberta será feita ao longo do tempo que nos distancia da sua época e do conflito que aborda.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Frost / Nixon (Pontuação: 10)
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Uma Batalha Televisiva a não perder!, 2009-09-25
O escândalo de Watergate que abalou os Estados Unidos em 1974 e que levou à resignação do presidente Richard Nixon, foi retratado no magnifíco filme de 1976 "Os Homens do Presidente" (Alan J.Pakula, 1976), levemente abordado em "Nixon"(Oliver Stone, 1995) e é referido em tom de comédia em "Forrest Gump"(Robert Zemeckis, 1994). Causa sempre algum embaraço falar na única resignação que a história americana regista e ainda hoje o escãndalo está longe de ter terminado.
Caído em desgraça depois da sua resignação, Nixon é um homem amargurado, sente-se incompreendido e anseia por uma chance de se justificar perante o eleitorado. David Frost é um apresentador de talk-shows que surpreende tudo e todos ao convidar Nixon para uma série de entrevistas e este aceita na ideia de finalmente se poder justificar perante a história. Está montado o cenário para uma das maiores batalhas televisivas de que hà memória.
Realizado por Ron Howard, realizador de "Splash - a Sereia" (1984) o seu primeiro grande sucesso de bilheteira; ou "Apollo 13" (1995) um dos seus melhores filmes; "Uma mente brilhante"(2001) premiado como Melhor Filme do Ano e Melhor Realizador; mais recentemente entrou numa faceta mais comercial ao realizar "O Código DaVinci" (2006) e "Anjos e Demónios"(2009); "Frost/Nixon" foi baseado numa peça teatral de Peter Morgan (que também escreveu o argumento) e realizado em estilo documentário televisivo, meio que Howard conhece bem porque antes de se dedicar ao cinema participou em séries televisivas, sendo a mais conhecida "Happy Days - Dias Felizes".
As interpretações são espectaculares. Todo o elenco agarra os papéis o melhor que podem e sabem. os secundários Sam Rockwell, Oliver Platt, Kevin Bacon são absolutamente credíveis. Mas o triunfo do filme assenta todo em Frank Langella e em Michael Sheen nos papéis respectivamente de Nixon e Frost. As cenas que ambos partilham são absolutamente fabulosas. Langella é simplesmente genial no retrato que faz do presidente americano, chegando quase a ofuscar a interpretação de Anthony Hopkins no semi-biográfico "Nixon". A cena em que, durante a última entrevista, Frost pergunta a Nixon se cometeu ilegalidades, este responde que "Quando o Presidente o faz, isso quer dizer que não é ilegal!" é de antologia, digna de figurar na galeria das melhores interpretaçõs de sempre.
As entrevistas são apenas o pretexto para a batalha que se trava entre estas duas personalidades. De um lado temos a comunicação social e o seu peso na sociedade, que ajudou a que o presidente fosse destituído de funções; do outro temos essa mesma personagem a querer usar as mesmas armas que o derrotaram para se justificar perante a história. É este o grande trunfo de "Frost/Nixon".
Nomeado para cinco Óscares da Academia, "Frost/Nixon" foi um dos grandes derrotados do ano, o que foi uma pena porque filmes destes acontecem cada vez mais de longe em longe. Ron Howard tem aqui um dos seus melhores filmes e que nas nossas salas passou quase despercebido.
para quem quiser passar um serão sem sair de casa, este é o filme indicado.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Uma Viagem com Martin Scorsese pelo Cinema Americano (Pontuação: 10)
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Uma Dupla Lição de Cinema!, 2009-09-07
Já se sabe que Martin Scorsese é um grande realizador, tardiamente reconhecido pelos seus pares, e é também um grande conhecedor do cinema. Exemplo desta última ideia é este documentário "Uma Viagem com Martin Scorsese pelo Cinema Americano".
Feito em 1994 aquando da celebração do centenário do cinema, este documentário constitui uma visão única e, nalguns aspectos, pessoal do realizador. Ele fala da importãncia e da influência de alguns dos nomes maiores da cinematografia americana e dos seus filmes na sua carreira de cineasta.
realizado, narrado e apresentado pelo cineasta, que já havia experimentado fazer uma espécie de filme-documentário sobre o último concerto dos "The Band" em "The Last Waltz" (1978), produzido uma série para televisão sobre os Blues ("The Blues", 2003), mais recentemente filmou "No Direction Home" (2005) sobre Bob Dylan e voltou ao registo de filme-documentário com "Shine a Light" (2008) sobre os Rolling Stones, este documentário conta ainda com depoimentos de alguns dos seus amigos realizadores e também de actores conhecidos do grande público.
Apesar de longo, este documentário não é apenas mais um; Se a ele juntar-mos "A Minha Viagem a Itália" (1999), outro documentário que Scorsese fez sobre o Cinema Italiano do Pós-Guerra, obtemos uma inigualável perspectiva do cinema no seu todo.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Os Marginais (Pontuação: 10)
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Uma Geração em Conflito!, 2009-09-07
Para recuperar do enorme investimento que fora "Apocalypse Now" (1979) e do desaire financeiro que foi "Do Fundo do Coração" (1981), que lhe custaram a hipoteca dos Estúdios Zoetrope que fundara anos antes, Francis Ford Coppola teve que aceitar fazer filmes-encomenda, ou seja realizar projectos que não eram seus desde o principio. "Os Marginais" foi um desses filmes.
A acção passa-se na cidade de Tulsa em 1965 onde as diferenças sociais levavam a que os adolescentes se dividissem em duas classes: "Os greasers", considerados marginais e sem futuro; "Os Socs", meninos ricos e com futuro radioso á sua frente. A história gira em torno da rivalidade entre estas duas classes e nem mesmo o principio de um romance entre um "greaser" e uma "soc" consegue evitar os confrontos e as consequências que daí resultam.
Realizado com a habitual mestria e bom gosto patentes em obras-primas anteriores como a trilogia "O Padrinho", "O Vigilante" (1974) ou "Apocalypse Now", Coppola consegue captar de forma brilhante e simples a transição entre a infância e a adolescência (as cenas em que Ponyboy e Johnny lêem o clássico "E Tudo o Vento Levou" de Margaret Mitchell); O desapontamento da idade adulta (simbolizado pela personagem de Dallas). Cenas como o confronto no parque de diversões, o combate nocturno à chuva entre "greasers" e "socs", ou ainda a cena da morte de Dallas transformado em marginal pelas suas próprias acções, remetem-nos para o que de mais clássico se fez no cinema, género muito acarinhado pelo realizador que lhe presta a devida homenagem.
Com um elenco de jovens talentos. Nomes como: Matt Dillon, Patrick Swayze, Ralph Macchio, Diane lane, C.Thomas Howell, Emilio Estevez ou o ainda relativamente desconhecido Tom Cruise, "Os Marginais" transformou-se num grande êxito de bilheteira e foi o veículo definitivo para a maior parte do seu jovem elenco que, ao longo das décadas seguintes, veriam as suas carreiras subir sem parar.
Juntamente com "Rumble Fish - Juventude Inquieta" (Francis Ford Coppola,1983), "Os Marginais"constitui o diptíco definitivo sobre uma certa geração que teimava em não crescer e transformar-se em adultos.
Em 2005, Francis Ford Coppola lançou uma edição especial deste filme que intitulou "The Outsiders - the complete novel" onde integrou cerca de 22 minutos de cenas adicionais tornando a adaptação muito mais fiel ao original de S.E.Hinton. Infelizmente esta edição permanece inédita em Portugal.
Para quem quiser compreender a geração nascida em meados dos anos 50 e as suas lutas para se imporem numa sociedade em constante mudança.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Star Trek (BLU-RAY) (Pontuação: 10)
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O Filme Zero da Série Televisiva e dos Filmes!, 2009-08-31
Recentemente tem-se assistido a uma constante procura pelo cinema em adaptar séries televisas para o grande écran. Foi assim com "Missão Impossível", com "Traffic- Ninguém sai ileso" ou com "Olho Vivo". Chegou agora a vez de "Star Trek".
Mais de 40 anos depois das primeiras aventuras da "USS Enterprise" e 30 anos depois do primeiro filme da série "Star Trek - The Motion Picture" (Robert Wise, 1979), J.J.Abrams, autor de televisão, criador de "Lost - Perdidos" e "Fringe" além de realizador de "Missão:Impossível III" (2006), resolveu contar o que Gene Roddenberry, criador original da série, nunca tinha contado. Apoiando-se nos escritos de Roddenberry, Abrams, voltou ao século XXII e contou a história do tempo em que James T.Kirk não passava de um cadete na Academia Starfleet, sempre metido em confusões com outros cadetes e com mulheres; como conheceu Spock e como conheceu o futuro Dr."Bones" McCoy; como conseguiu ir para bordo da "USS Enterprise", juntando a pouco e pouco aqueles que serão os futuros companheiros das aventuras espaciais e participar nos primeiros confrontos com os Romulanos que serão dali para a frente os arqui-inimigos da raça humana.
Contando com um elenco practicamente desconhecido do grande público onde apenas pontuam os nomes mais conhecidos de Eric Bana, Bruce Greenwood, Ben Cross, Winona Rider e, homenageando o elenco original da série, Leonard Nimoy (num pequeno papel como...Spock!), "Star Trek" só tem a ganhar com isso.
Nunca descolando da sua formação televisiva, J.J.Abrams fez um filme fabuloso, pleno de acção, rico em pormenores, onde os efeitos especiais são qualquer coisa de espectacular e inovador e o filme nunca perde com isso.
Em "Star Trek" são respondidas algumas das questões que, tanto a série, como os filmes posteriores, nunca responderam; assim temos, por exemplo, as razões que levam o Dr.McCoy a manter uma animosidade constante com Spock (é incrível a semelhança do Spock de Zachary Quinto com o Spock de Leonard Nimoy na série e nos filmes!); ou a sequência em que Kirk vai fazer o seu teste de Koboiashy Maru, a solução que encontrou, referida em "Star Trek II: A Ira de Khan"(Nicholas Meyer, 1982), o melhor filme da série até agora; ou ainda a aparição de Scotty, o futuro Engenheiro-Chefe da Enterprise.
Se ainda houver alguém que, ou nunca ouviu falar ou nunca viu "Star Trek" (esta última é dificil!), tem aqui uma hipótese de se redimir e adquirir um conhecimento obrigatório de televisão e cinema. Deve ver-se primeiro, depois vêem-s as séries e finalmente os filmes e porquê? devem estar alguns a perguntar-se: é que "Star Trek" funciona como introdução à série televisiva original (não estou a falar das séries subsequentes como "Voyager", ou New generations") e também aos filmes que dela derivaram (principalmente aqueles com o elenco original).
"Star Trek" é o filme Zero da mais famosa série televisa de sempre e é também o melhor de todos os filmes que se fizeram sobre ela.
A não perder!
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
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