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Muitos filmes de grande qualidade não têm o destaque que merecem, passando quase despercebidos. Por razões meramente económicas, as verbas promocionais concentram-se apenas em meia dúzia de títulos "mais comerciais". Para contrariar esta tendência, criámos este espaço de partilha e entre-ajuda, onde todos podem participar: escolha os filmes que achou mais marcantes e deixe o seu comentário.
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Imperdoável - Edição Especial (Pontuação: 10)
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O Ocaso do Western, 2014-05-21
Em 1992, depois do triunfo de “Dances with Wolves - Danças com Lobos” (Kevin Costner, 1990) que reanimara o Western, o género mais querido, juntamente com o musical, do cinema, da melhor maneira possível, pareceu que este género popular estava de volta para trazer o público, que agora estava mais virado para a ficção científica, de volta. Mas a sensação que ficou foi que o género, apesar de ainda não estar morto e enterrado, parecia estar moribundo. Era tempo de fazer um elogio que, ao mesmo tempo o homenageasse condignamente. "Unforgiven - Imperdoável” é a mais bela página que se pode escrever sobre um género que, afinal, esteve na génese do cinema, "The Great Train Robbery" de Edwin S.Porter é o primeiro Western da história e foi realizado em 1903.
Ao tomarem conhecimento duma recompensa lançada por um grupo de prostitutas a quem matar o homem que deformou uma delas, dois ex-foras-da-lei juntam-se a um jovem para tentar ganhar a recompensa e assim garantir o seu futuro e dos seus familiares. Ao chegaram á cidade de Big Whiskey, no Wyoming, são confrontados com uma oposição que não contavam.
“Imperdoável” começa por ser um filme que olha para o velho Oeste como se este fosse uma novidade. Os pistoleiros profissionais tornaram-se de tal maneira uma espécie em vias de extinção que os jornalistas os seguem em busca das suas histórias ( a personagem de English Bob, um caçador de prémios, fabulosamente interpretado por Richard Harris, cuja fama o precede, mas que na realidade não passa de um engano, graças ao jornalista/biógrafo que com ele vem, é disso exemplo); homens que dormiram noites ao relento, estão agora a construir as sua próprias casas; William Munny , outrora um ladrão e assassino, sobrevive graças á sua criação de porcos. Em 1880 (ano em que se passa o filme), o Oeste vive das memórias de homens que agora vivem numa espécie de classe média e é á volta destas memórias que esta obra-prima gravita sem hesitar.
O filme é sobre a passagem do tempo e isso vê-se no seu próprio visual, reflectida na fotografia quase genial de Jack N.Green. Logo no início vemos uma casa, uma árvore, um homem e uma campa e o sol está a pôr-se, não só no homem, como também sobre a era que ele representa, é de uma genialidade quase absoluta de tão simples que é. Mas, mais á frente, ainda no campo visual, encontramos cenas exteriores que mostram a vastidão da terra onde o Western reinou durante décadas. Já os interiores diurnos são fotografados em forte contra-luz de modo a tornar as figuras interiores escuras e, por vezes, difíceis de ver.
Em "Imperdoável" todos os símbolos do western estão invertidos: o xerife que sempre representou o bem e a moral, é, na realidade, o vilão (excelente interpretação de Gene Hackman)e o homem sem qualquer tipo de escrúpulos que impõe a lei na cidade com punho de ferro, não autoriza armas de fogo na sua jurisdição e faz cumprir essa proibição com espancamentos sádicos e públicos, a roçar a humilhação e depois regressa á beira-rio onde constrói a sua casa; os supostos vilões, apresentados como sendo maus como as cobras (interpretados sobriamente por Clint Eastwood e Morgan Freeman), que não passam de velhos que já esqueceram uma parte do seu violento passado, mas que, de tempos a tempos, ainda os assombra, são os verdadeiros heróis do filme. Entre todas estas personagens, gravitam algumas outras que, apesar de secundárias, têm a sua importância na acção: desde logo ”Schofield Kid” (Jaimz Woolvett), um incompetente pretenso herói, desafia Munny a ir com ele em busca da recompensa, míope que não consegue acertar em nada, mesmo tendo um revólver modelo Schofield (daí ter-se baptizado a si próprio com esse nome) da “Smith & Wesson; Madame “Strawberry Alice” (Frances Fisher), prostituta que teve a ideia de lançar a recompensa porque quer vingança sobre aqueles que mutilaram “Delilah” (Anne Thompson), uma das suas meninas; e ainda “Skinny Dubois” (Anthony James), dono do bar e bordel, tem outras preocupações acerca dos acontecimentos: como pagou muito dinheiro por Delilah, que após ser mutilada pelos cowboys, já não lhe vai compensar o investimento, portanto ele quer ser recompensado.
Eventualmente a história volta aos termos clássicos do Western quando o xerife corrupto se confronta com o fora-da-lei, transformado em homem justo. A história torna-se, menos sobre a caça ao prémio e mais sobre a necessidade, mútua e pessoal , de resolver a questão entre ambos, já que se encontraram algures no passado e veremos, posteriormente, o jovem William Munny emergir da concha da idade onde se escondeu e voltar a ser o homem temeroso que fora, como também acontece no longo acto final em que o mesmo Munny eficiente e omniscientemente se transforma numa espécie de vingador das humilhações a que o seu amigo Ned foi sujeito: um trabalho de montagem eficiente, em que os elementos da cena são montados de modo estrategicamente deliberado para serem suficientemente credíveis e que nos trazem á memória as personagens que Eastwood interpretou nos seus westerns anteriores: o espírito á procura de justiça em “O Pistoleiro do Diabo”; o justiceiro Josey Wales de “O Rebelde do Kansas” e o Pregador sem nome de “O Justiceiro Solitário” e percebemos que o velho profissional ainda não se esqueceu de como se faz.
Clint Eastwood, o realizador, ao baralhar e dar de novo, dá uma dimensão diferente e original ao género e aproxima-se duma quase genialidade magnifica, que mantém no próprio título do filme. Será que Munny procura obter o perdão da sua falecida esposa e também de todos os outros que enganou, violentou ou matou? A sensação com que se fica é que ele ainda se sente assombrado pela culpa: está reformado, mas, ao aceitar ir em busca do dinheiro da recompensa, pois precisa dele para sustentar os seus filhos, apesar de achar que eles ficariam melhor servidos se o seu pai não andasse a correr risco de vida contra pistoleiros mais novos e certamente mais experientes, mostra que não se emendou. Eastwood não se alargou em explicações sobre o porquê daquele título, mas, existe no filme um momento em que talvez essa explicação seja aflorada: logo após ter sido baleado, Little Bill diz “eu não mereço isto…morrer assim, desta maneira…eu estava a construir uma casa.” Ao que Munny responde “Merecer, não tem nada a ver com isto”. Mas, na realidade, até tem porque, apesar de Ned e Delilah não receberem aquilo que lhes é devido, William Munny certifica-se que os outros o recebem. É esta moral, por vezes implacável, em que o bem eventualmente silencia o mal, que está no centro do Western, e Clint Eastwood, tal como John Ford já o fizera na sua obra-prima “The Searchers- A Desaparecida” (1956), não tem receio de o dizer.
Quando estreou, “Imperdoável”, foi um inesperado sucesso de bilheteira em todo o mundo. Com um orçamento estimado em cerca de 14.400.000 dólares, a receita em todo o mundo foi de cerca de 159.200.000 dólares, nada mau para um filme dum género já considerado extinto. Mas o triunfo maior do filme seria em prémios. A primeira surpresa viria dos Globos de Ouro onde arrecadaria dois dos quatro Globos para que estava nomeado, incluindo um para Clint Eastwood como Realizador. Conforme avançava a temporada dos prémios, continuava a caminhada de “Imperdoável” em direcção ao Olimpo do Cinema. Seria nos Oscares que o triunfo do filme iria ser determinante. Com nove nomeações para os Oscares, "Imperdoável" venceu quatro, incluindo Melhor Realizador e Melhor Filme do Ano para Clint Eastwood. Finalmente o cinema olhava com respeito e deferência para um dos seus maiores icons. Foi o consagrar duma carreira imaculada de mais de quarenta anos.
Caberia a Clint Eastwood, actor, produtor e realizador, a missão de escrever o epílogo do Western, na forma daquele belíssimo plano final (igual ao início, mas mais completo) de um pôr-do-sol, uma campa e junto dela a imagem de William Munny que se dissolve na cena enquanto correm os créditos finais, em que o actor/realizador, agradece a Don (Siegel) e a Sergio (Leone), os seus mentores, subentenda-se, o que fizeram por ele, mas, principalmente, o que fizeram pelo western enquanto género cinematográfico.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Seven - 7 Pecados Mortais (Pontuação: 10)
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O Triunfo do Mal, 2014-04-17
O filme do género policial, habitualmente, remete-nos para assaltos ou roubos, para ladrões e polícias que, geralmente, depois duma cuidadosa investigação, acabam por se envolver em perseguições e tiroteio. Recentemente surgiu dentro do género, uma nova vertente que envolve “crimes em série”, ou seja crimes que ocorrem durante algum tempo, em determinados locais e, á partida, sem ligação entre si, perpetrados por “ Serial Killers”, dos quais o mais famoso é “Hannibal “The Canibal” Lecter” brilhantemente interpretado no cinema por Sir Anthony Hopkins no multi–premiado “Silence of the Lambs – O Silêncio dos Inocentes” (Jonathan Demme, 1991) e também na sequela “Hannibal” (Ridley Scott, 2001) e respectiva prequela, “Red Dragon – Dragão Vermelho” (Brett Rattner, 2002). Em 1995 “Seven - Sete Pecados Mortais” levou o tema do “Serial Killer” um pouco mais longe.
David Mills é um detective recém- transferido para o departamento de homicídios de uma grande cidade onde vai fazer parelha com William Somerset, um detective veterano que está para se reformar. Os dois começam a investigar um estranho homicídio e rapidamente chegam á conclusão que este foi meticulosamente planeado com alguns requintes de sadismo. Quando ocorre um segundo homicídio, igualmente meticuloso, estranho e sádico, os dois detectives começam a aperceber-se que alguém pretende usar os “Sete Pecados Mortais” como arma de crime.
Escrito por Andrew Kevin Walker enquanto viveu em Nova York e tentava ser escritor de argumentos, Walker não gostou da sua estadia na cidade e “Seven” reflecte um pouco essa experiência, já que, nas suas próprias palavras “ é verdade que se eu não tivesse vivido lá, eu provavelmente nunca teria escrito “Seven”, e quando finalmente conseguiu escrever qualquer coisa, pensou no actor William Hurt para desempenhar o papel de William Somerset, cuja personagem foi baptizada com o nome do autor favorito de Walker, W. Somerset Maugham.
Realizado por David Fincher, que fora técnico de Efeitos Especiais na “Industrial Light & Magic” de George Lucas antes de se tornar realizador de publicidade e posteriormente realizadou videoclips para nomes sonantes como Sting, Madonna, Rolling Stones, Billy idol, Michael Jackson, entre outros, deu nas vistas quando realizou o videoclip “Self Control”, o tema interpretado por Laura Brannigan onde mostra um seio da cantora. Catapultado para a fama, veio a realizar “Alien 3 – A Desforra”, em 1993, mal-amado pela crítica e pelo público por ser demasiado filosófico em vez de terror e acção como haviam sido os seus antecessores; entre este “Seven” e a sua obra-prima chamada “Fight Club – Clube de Combate” (1999) , fez “The Game – O Jogo” em 1997 com Michael Douglas e Sean Penn. A sua abordagem a “Seven” é feita num estilo documentário, inspirada em diversas séries de televisão e no policial clássico “The French Connection – Os Incorruptíveis contra a Droga” (William Friedkin, 1971). Para Fincher, o que interessava era contar uma história psicologicamente violenta e quase desumana, cujas implicações seriam, não tanto “o porque se faz", mas sim “o como se faz”, além de a achar uma espécie de meditação sobre o mal, coisa que um policial normal, observando todas as regras do género, raramente contempla. Pensado e feito para quebrar as regras do género, “Seven” consegue-o plenamente.
Logo desde o início que se percebe que este filme não será o típico thriller a que nos habituamos a ver: o genérico inicial corre sobre imagens de alguém, algures numa zona da cidade a cozer tiras de papel, a escrever páginas e a raspar a pele dos dedos. Presumivelmente é John Doe a preparar o seu trabalho e a dar ao espectador uma ideia do tipo de pessoas que os detectives vão ter pela frente: metódico e organizado.
Com a acção situada numa qualquer cidade (nunca se chega a saber o seu nome), ruidosa, cheia de gente estranha e onde chove constantemente (talvez um piscar de olhos à Los Angeles de 2019 de “Blade Runner – Perigo Eminente”, segundo Ridley Scott) agindo como uma força opressiva á investigação dos detectives, era assim que Fincher queria mostrar aquela cidade, nas suas palavras “queria aquele mundo sujo, violento, poluído e, por vezes, deprimente...tudo tinha de ser autêntico e o mais cru possível, só assim é que o filme resultaria...”, ou seja, por resultados, entenda-se choque e era isso mesmo que Fincher queria: chocar audiências e, tendo um argumento que o iria fazer, nada melhor do que escolher um elenco onde esse choque resultasse para todos e ficava-se com o melhor de dois mundos: um grande filme e grandes interpretações.
Brad Pitt, recém-chegado de “Legends of the Fall – Lendas de Paixão” (Edward Zuicke, 1995), foi contactado por Fincher que o vira nesse filme e ficara impressionado com o seu potencial, leu o argumento e ficou entusiasmado com a possibilidade de compor a complexa personagem do Detective David Mills, jovem detective, recém-chegado aquela metrópole, que desconhece as amarguras da vida nas grandes cidades, casado com uma bonita e insegura jovem (Gwyneth Paltrow), e que, com o avançar da investigação, começa a conhecer um outro lado que até aí lhe passara ao lado, principalmente quando aceita a ajuda do veterano detective soberbamente interpretado por Morgan Freeman. Somerset é um homem experiente que viveu sempre no meio daquele universo sujo e decadente, tem um segredo obscuro no seu passado, e, agora que está á beira da reforma, não se quer envolver naquele caso, mas, ao mesmo tempo, sente que deve ajudar Mills.
A dado momento, quase no final, Sommerset, em conversa com Mills, diz-lhe “Sabes que isto não vai acabar bem”, Mills não concorda e diz que apanhar John Doe é apenas uma questão de tempo, ao que Somerset contrapõe lembrando que o criminoso já cumpriu quatro dos sete pecados mortais. Logo a seguir, quando é descoberto o quinto cadáver, é que nos começamos a aperceber que Somerset poderá ter razão no que diz. Acontece então o primeiro momento chocante do filme: John Doe (literalmente, “João Ninguém”), o “Serial Killer”, brilhantemente interpretado por Kevin Spacey (o actor que recebera um Oscar de Melhor Actor Secundário pela sua interpretação em “Os Suspeitos do Costume” de Bryan Singer (1995), pediu á produção para não incluir o seu nome no genérico inicial, para assim acentuar o efeito choque da sua aparição), entra em cena, todo ensanguentado para se entregar aos dois detectives. Nunca se havia visto nada assim no cinema policial nem em nenhuma das suas diversas vertentes. É mais uma regra que “Seven” e David Fincher vieram quebrar.
Esta entrega voluntária (ou não, caberá a cada um ajuizar nesse sentido), baralha as contas aos dois detectives e começa um jogo de vontades que durará até ao final, entre o maduro e cerebral Somerset ,o jovem e cabeça dura Mills e o meticuloso, frio e calculista John Doe que alega conhecer o paradeiro dos dois cadáveres que faltam e confessará os crimes, se forem os dois detectives a conduzi-los ao local onde se encontram, ou então alegará insanidade mental. Decidido a acabar com aquele caso, Mills aceita a condição, apesar das reservas e preocupação de Somerset. Tudo isto nos leva a uma das mais assustadoras cenas de que há memória no género desde “Manhunter – Caçada ao Amanhecer” (Michael Mann, 1986) a primeira aparição (embora secundária) de Hannibal Lecter na sétima arte: durante a viagem para o local onde Doe diz estarem os cadáveres em falta, este diz que foi Deus que o mandou punir “aqueles inocentes”, como lhes chama Somerset e explica que os seus actos naqueles dias serão estudados, analisados e seguidos, além de tecer alguns comentários a Mills. Somos então conduzidos pela mão segura de Fincher até ao segundo momento chocante do filme: o final, quando são revelados os dois últimos pecados e permitindo que o mal, personificado por John Doe triunfe causando danos irreparáveis nas personagens.
Indiscutivelmente um dos grandes filmes da década de 90 do século passado.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Fim-de-Semana Alucinante (Pontuação: 10)
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David contra Golias, 2014-01-28
Há filmes assim. Filmes cuja simplicidade do argumento os torna em poderosos dramas difíceis de esquecer ou até mesmo de ignorar.
Quatro homens de negócios decidem fazer um fim-de-semana radical. Pretendem descer, de canoa, o Rio Cahulawassee, antes que este e o vale que o circunda sejam inundados pela construção duma barragem. Tudo corre bem até os aventureiros se aperceberem de que, para além do próprio rio, existem outros perigos á espreita.
O filme começa com as personagens em “voz off” a discutirem sobre o desaparecimento dos habitats naturais e a corrupção da sociedade moderna, enquanto o genérico decorre sobre imagens da destruição desses mesmo habitats, neste caso, o desaparecimento do Rio Cahulawassee, a sua planície e a pequena cidade de Aintry, onde irá terminar a viagem dos quatro amigos.
Logo desde o início, pouco depois da cena antológica do duelo musical entre Drew e um rapaz local (o tema “Duelling Banjos”, ganhou um “Grammy”, em 1974, pela Melhor Performance Instrumental de Música Country), até á última imagem do filme ( a mão (de quem?) que se ergue do fundo do lago), vamo-nos apercebendo que aquele não será um passeio fácil, quer seja pela ameaça dos habitantes locais (a espingarda que se vê ser colocada numa viatura ou a visão ameaçadora, pouco antes de começar a descida do rio, por entre as árvores, dos mesmos habitantes), quer seja pelos próprios aventureiros a quererem demonstrar, totalmente vulneráveis contra um meio ambiente hostil, a sua masculinidade.
Nunca um rio, aparentemente calmo, foi tão ameaçador como este e uma vez mais apercebemo-nos disso na cena em que, pouco depois de se iniciar a descida, as canoas passam por baixo duma ponte na qual se encontra o rapaz e o seu banjo que os olha com ar de preocupação sem responder aos acenos e sorrisos de Drew. A partir deste ponto acabam os últimos traços de civilização e começa uma jornada através do desconhecido.
O rio, de certa maneira, personifica as forças da natureza que muitas vezes empurram os homens para destinos cada vez mais aventurosos, testando as suas capacidades e onde se evidenciam mais os conflitos entre campo e cidade. Os aventureiros sentem a necessidade de se entregar (daí o título original “Deliverance”) e se libertarem do seu próprio mal (fruto da educação citadina) e confrontarem com forças adversas como a natureza, transformando este “medir de forças” numa quase alegoria biblíca do Antigo Testamento, do combate entre David e Golias, aqui com consequências diferentes do confronto de então.
O tom que John Boorman, realizador conceituado de filmes como “Point Blank – À Queima-Roupa” (1967) um thriller policial de vingança com Angie Dickinson e Lee Marvin; ou “Hell in the Pacific – Duelo no Pacífico” (1968), um filme sobre a luta pela sobrevivência entre dois soldados, um americano e um japonês numa ilha do pacifico no final da IIª Guerra Mundial e que se pode considerar quase como um prólogo a “Fim-de-semana Alucinante”, dá ao filme é claustrofóbico e sombrio e está de acordo com o argumento de James Dickey, ( que interpreta o xerife de Aintry no final do filme), baseado no seu romance e para o qual Boorman (não creditado) contribui com algumas ideias. È um exercício cinematográfico estilizado, filmado ao longo de cerca de 40 milhas ( mais ou menos 60 quilômetros) de um rio traiçoeiro, ajudado por uma fotografia de cortar a respiração. O ritmo é deliberadamente lento para que tenhamos tempo para pensar em tudo aquilo que vemos desfilar perante os nossos olhos, principalmente, após a violação brutal a Bobby por dois montanheses que acontece perante os olhos de um Ed indefeso que só espera que o mesmo não lhe vá acontecer, percebemos que nunca mais nada será igual para aqueles quatro aventureiros. Boormans queria que o filme fosse um grande sucesso e como tal queria os melhores actores para os papéis dos quatro aventureiros: James Stewart, Marlon Brando, Henry Fonda ou Lee Marvin. Todos recusaram os papéis, Stewart e Fonda não concordaram com a temática aventureira do filme; Brando e Marvin achavam-se velhos demais para interpretar qualquer um daqueles papéis e foi o último que sugeriu ao realizador que usasse actores mais novos.
Com um elenco de excepção, onde se destaca o ex-duplo de cinema, Burt Reynolds, como Lewis, o mais másculo do grupo e que tudo fará para manter essa imagem, líder, não assumido do grupo, mas que se vê obrigado a sobressair como tal, quando os quatro não se conseguem entender sobre o que fazer ao cadáver do montanhês; Ned Beatty e Ronny Cox, ambos em papéis de estreia, são respectivamente Bobby e Drew, são os elementos mais fracos do grupo, são homens completamente fora do seu meio ambiente e isso percebe-se logo desde o início; mais impressionante é Jon Voight, como Ed, o homem que tem de passar a linha que divide o racional do irracional, ele tem que se assumir a sua quota-parte de homem másculo quando sente que tal é necessário (grande parte do filme, ele permanece como estando, tal como os seus dois outros companheiros, fora do seu elemento natural). Ed acaba por ser o mais perigoso dos quatro, porque combina os dois extremos da natureza humana e utiliza-os nefastamente para salvar a sua vida e a dos seus companheiros, o que não muda em nada o facto dele e dos seus amigos personalizarem tudo aquilo que é condenável aos olhos da sociedade.
Dificil de classificar, “Deliverance”, não se inclui em nenhum dos géneros habituais, até porque não tem nenhum dos “clichés” habituais neste tipo de filmes e dificilmente se conseguirá incluir naquelas visões comportamentalizadas do mundo, está muito para além disso. Mas duma coisa temos a certeza: é um filme que atira com todos os conceitos de sociedade pela janela fora e deixa-nos a pensar.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
A Última Tentação de Cristo (Pontuação: 10)
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Entre o Espírito e a Carne, 2013-11-17
Desde muito cedo na sua carreira que Scorsese queria fazer um filme sobre a vida de Jesus Cristo, mas faltava-lhe a matéria em que se basear, porque ele não queria imitar as grandes obras do cinema mundial sobre o tema. Queria algo que,anos mais tarde,apelidaria de “o meu filme mais pessoal”.
Em 1972, enquanto filmava “Boxcar Bertha – Uma Mulher da Rua”, Barbara Hershey, a actriz principal desse filme, deu-lhe a conhecer o livro “The Last Temptation of Christ”, escrito em 1951 e publicado em 1953, por Nikos Kazantzakis, escritor e filósofo grego, no qual o autor dava a conhecer um Cristo diferente, cheio de dúvidas sobre o seu papel no universo, um carpinteiro odiado pelos judeus por colaborar com os romanos ao fazer-lhes cruzes que são depois usadas para crucificar os seus pares. A actriz pediu ao realizador que transformasse o livro em filme e que ela gostaria de interpretar o papel de Maria Madalena.
Scorsese adorou o livro. Kazantzakis expunha ali as mesmas dúvidas que ele tivera anos antes quando entrara no seminário e, pouco tempo antes de tomar os votos, haviam assaltado a sua existência. Tratou logo de adquirir os direitos de adaptação e, em finais da década de 70, pediu a Paul Schrader, que já escrevera o excelente “Taxi Driver” (Martin Scorsese, 1976), que transformasse o livro num argumento. Scorsese tinha encontrado o seu Cristo, mas ainda iria ter de esperar até 1988 para o levar até ao grande écran.
Em “A Última Tentação de Cristo”, assistimos á passagem de Jesus Cristo na terra, a sua vida enquanto homem, o apelo superior a que estava vetado, mas que não compreendia e os desafios que enfrentou como qualquer ser humano faz e também á última tentação a que foi sujeito já na cruz.
O filme abre com um “travelling” vertiginoso (quase como se o Espírito de Deus descesse á terra) que vai terminar num plano vertical sobre um homem deitado na terra (Jesus, o escolhido por Deus para cumprir a sua missão, as vozes que estão na sua cabeça e que ele não compreende o que pretendem de si).
Aquilo que vemos no écran é um Cristo confundido e pouco esclarecido sobre o propósito da sua missão e o que realmente querem dele, para isso, vai magoar Deus, até lhe ser explicado o que pretendem dele e fá-lo ao fabricar cruzes para os romanos; Judas, ao contrário do que falam os Evangelhos, era o mais devoto dos Apóstolos, cuja traição a Cristo foi para o salvar da própria humanidade e quem, em última instância, salva Cristo de sucumbir à Tentação e morrer condignamente em vez de o fazer como um ser humano comum; Maria Madalena, a prostituta que ama Jesus, quere-lo só para si e não aceita que ele lhe seja roubado, para o atingir, ela prostitui-se com todos os homens que encontra, acabando eventualmente por ser salva por um Jesus pré-messiânico, na dramática cena do apedrejamento onde Jesus tenta, em vão, explicar á multidão o que Deus pretende.
Um elenco de luxo, onde se incluem os nomes de Willem Dafoe, naquele que, se exceptuarmos o papel de Sargento Elias em “Platoon – Os Bravos do Pelotão” (Oliver Stone, 1986), será talvez a melhor sua interpretação; Harvey Keitel é Judas, o Primeiro Apóstolo (novamente ao contrário da história conhecida), encarregado de matar Jesus pela sua traição e que acaba convencido pelo próprio a ajudá-lo a perceber a sua missão. O actor, um “habitué nas produções de Scorsese, apesar do seu sotaque nova-irquino, tem uma prestação ao nível de tantas outras a que nos habituou em inúmeras produções; Barbara Hershey no papel de Maria Madalena, ama e é amada por Jesus, que a troca por desígnios mais altos, a bonita actriz tem aqui o seu melhor desempenho; Harry Dean Stanton, é o Apóstolo Paulo que, na sua vida alternativa, Jesus encontra a pregar sobre o messias que morreu na cruz; o realizador Irvin Kershner (no papel de Zebedeu, o responsável pelo apedrejamento a Madalena) e o cantor David Bowie, no papel de Pôncio Pilatos, entre outros, que contribui para tornar este filme um verdadeiro entretenimento.
Onde o filme se torna verdadeiramente magistral é na cena do Gólgota onde, graças à realização excepcional de Scorsese, vemos Cristo crucificado a ser tentado por Satanás para escolher uma vida normal e surgem então as tão polémicas imagens que puseram o mundo cristão em polvorosa: Jesus e Maria Madalena, casados, a fazer amor em sua casa. São cerca de cinco minutos em que somos postos perante uma espécie de vida alternativa de Cristo. Muito pouco tempo para criar tão grande polémica, uma vez que logo de seguida, a tentação termina e a história segue o seu curso como a conhecemos.
Apesar da polémica que acompanhou o filme, este conseguiu um sucesso moderado em países católicos e não católicos, críticas divididas, assim como a opinião pública. Não raro foi assistir-se a grupos de pessoas junto das salas de cinema a tentar convencer potenciais espectadores a não verem o filme. Portugal, como habitualmente, não foi excepção nesta situação. No meio de tanta polémica, o filme acabou por receber uma nomeação para os Oscares da Academia, precisamente para o seu realizador.
Desde o inicio do filme até á crucificação no Gólgota, assistimos a um olhar diferente, brilhante em alguns aspectos, e bonito da vida de Cristo a partir duma abordagem não tradicional e raramente vista, tornando a "A Última Tentação de Cristo" uma pequena obra-prima no universo cinematográfico, mas uma grande obra-prima no universo do realizador Martin Scorsese.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
007 - Skyfall (BLU-RAY) (Pontuação: 9)
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Venham os próximos 50 anos!!, 2013-01-22
26 de Outubro de 2012, “Skyfall”, o 23º filme da série mais famosa de sempre, vê finalmente a luz do dia, ao estrear simultaneamente em quase todo o mundo e, intencionalmente ou não (acredito que tenha sido propositado!), coincide com os 50 anos de estreia de “Dr. No – 007 – Agente Secreto”, o primeiro filme da série, na Inglaterra, que aconteceu a 6 de Outubro de 1962.
As comemorações começaram oficialmente a 27 de julho, na abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, quando o agente secreto sai do Palácio de Buckingham para escoltar Sua Majestade até ao Estádio Olímpico de Londres, palco do evento, terminando simbolicamente com a estreia do filme.
A sede do MI6, o coração de Londres, é alvo de ataque terrorista. Rapidamente se percebe que o alvo é M e Bond é chamado para descobrir, perseguir e, nas próprias palavras da sua chefe, eliminar a ameaça custe o que custar.
Daniel Craig regressa pela terceira vez ao papel do agente secreto com licença para matar mais famoso do mundo, assim como Judi Dench regressa como M, a implacável chefe de 007, que, mesmo não lhe dando muito espaço de manobra, confia o mais possível no seu agente ao ponto de, numa reavaliação a que James Bond é submetido, mentir sobre a mesma perante os seus superiores. A este elenco habitual, juntam-se Javier Bardem, que interpreta Silva, o vilão, com requintes de malvadez, que rouba as cenas em que entra ao ser divertido, imprevisível, assustador e, no final, quase trágico e Ralph Fiennes que interpreta Gareth Mallory, o ministro para quem a existência de agentes secretos do tipo 007, em pleno séc XXI, é uma anedota do passado, além duma participação especial de Albert Finney como Kincade, uma personagem que conheceu Bond no passado.
A preocupação que percorre todo o filme é várias vezes falada no filme “em pleno século XXI, num mundo informatizado onde toda a gente está em contacto com toda a gente numa questão se segundos, haverá necessidade e lugar para agentes secretos que vivem noutro mundo onde ainda havia a guerra fria?”. A resposta é dada pelo trabalho do realizador Sam Mendes que, trabalhando sobre um argumento de Neal Purvis e Robert Wade, responsáveis pelos filmes anteriores da série, aqui auxiliados por John Logan, baseando-se como anteriormente nas personagens criadas por Ian Fleming na década de 50, valoriza a história e personagens sobre quaisquer outras coisas (os gadgets são praticamente ignorados ou inexistentes mesmo!) e soube entender a alma e a verdadeira essência de James Bond. Mendes filma cenas de acção que são um verdadeiro deleite para o espectador e devolvem credibilidade ao franchise enquanto abre novos caminhos para a série. Toda a sequência pré-genérico é disso exemplo.
Em “Skyfall”, assistimos ao final de um ciclo na série. Tal como no final de “Casino Royale“ (Martin Campbell, 2006), dá-se uma volta de 360º graus, trazendo-nos para o início da série ou, se quisermos, para um novo começo. A cena final entre Bond e Eve e depois entre Bond e Mallory é, para os mais atentos e para aqueles que a conhecem e seguem desde os tempos de Sean Connery, como eu, especialmente esclarecedora.
Uma última palavra para o tema-título do filme, interpretado por Adele com tal sentimento que nos transporta imediatamente ao tempo em que Shirley Bassey, com a sua voz poderosa, interpretou “Goldfinger”, o tema daquele que ainda hoje é considerado o melhor filme da série. É um tema poderoso, um dos melhores da série, digno de figurar ao lado dos temas interpretados pela já citada Shirley Bassey, Tom Jones, Paul McCartney, Tina Turner, ou até Madonna. Depois de arrebatar o Globo de Ouro para a Melhor Canção Original, tem todos os ingredientes para chegar ao Oscar na respectiva categoria, já que é uma das cinco nomeações que o filme recebeu.
Vinte e três filmes, seis actores e cinquenta anos depois, a série James Bond veio para ficar e, prova disso, é a frase que assegura a continuidade, visível, como sempre, no final de cada filme “James Bond Will Return”. Cá os esperamos nos próximos 50 anos!!!
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Cotton Club (reposição) (Pontuação: 9)
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No Tempo do Jazz, 2013-01-18
Em 1984 Coppola foi convidado para pelo produtor Robert Evans para re-escrever o argumento de Mario Puzo para um filme que Evans também queria realizar, intitulado “Cotton Club, inspirado pelo livro de fotografias da história de Cotton Club, um famoso clube nocturno do Harlem, editado por James Haskins. Já com a produção a decorrer ( segundo o que Gregory Hines terá dito numa entrevista, a duração do filme ascendia a três horas), Robert Evans decide que não quer realizar o filme. Coppola foi o senhor que se seguiu para garantir a continuidade do projecto.
O Cotton Club, é o mais famoso clube nocturno e também a melhor rampa de lançamento para qualquer pessoa que queira ser alguém no mundo do espectáculo. Conta-se então a história das pessoas que o visitavam, das pessoas que o geriam e do Jazz, a música que tornou tão famoso. Mas este é também um tempo de lutas entre Judeus, irlandeses e negros pelo controle das ruas do Harlem em 1928.
Logo desde o início, ao mostrar o genérico inicial em estilo antigo, tipo anos 20, as letras prateadas e cortadas com um raio de luz, sob um fundo negro, intercortado com um número musical, filmado com estilo, que decorre no Cotton Club, Coppola diz-nos que estamos num filme de época e sugere que este será um filme enérgico.
A abordagem que o realizador faz ao filme e ás suas personagens, é muito semelhante aquela que fizera em “ O Padrinho” e “O Padrinho – Parte II”: Dixie Dwyer, ao salvar a vida a Dutch Schultz, um mafioso, vê-se envolvido e arrastado para o mundo da corrupção contra o qual vai ter que lutar para se libertar. O seu dilema remete-nos para a mesma situação que Michael Corleone (Al Pacino ) enfrenta em “O Padrinho”; da mesma maneira, a figura da mãe de Dixie é uma figura subtil, mas presente na história. Na última cena de Cotton Club, é a última personagem a entrar em cena para dizer adeus ao filho. Em “O Padrinho” e “O Padrinho – Parte II”, a mãe é uma figura capital no enredo; a relação entre Sandman e Clay Williams (Gregory e Maurice Hines) é um pouco o reflexo da relação entre Michael e Fredo em “O Padrinho – Parte II”, em que um irmão traí o outro e essa traição traz consequências graves. Em “Cotton Club”, um irmão é visto a trair o outro, mas, o sentido de família acaba por vir ao de cima e, num momento tocante do filme (os dois irmãos, finalmente reunidos, a sapatear um com o outro), a traição é perdoada; a Dutch Schultz, falta-lhe a subtileza e a astúcia dos vilões tanto de “O Padrinho” como de “O Padrinho – Parte II”, mas exibe o mesmo racismo que o senador Pat Geary em “O Padrinho – Parte II”; O lar, nos filmes do realizador, funciona como um objecto vital, uma espécie de refúgio do caos que se vive na rua. Tanto a casa de Dixie como a dos irmãos Williams são disso exemplo.
Nos filmes de Coppola, o elenco é sempre importante e em “Cotton Club”, tal importância não foi descurada. Richard Gere é Dixie Dwyer, simpático, charmoso, brincalhão, mulherengo, um dos poucos brancos autorizados a tocar no Bamville Club, um clube para negros. Vêmo-lo logo no início do filme a tocar a sua corneta (é mesmo o próprio Gere que faz os seus solos!). Gere, utilizando o estatuto de “sex simbol” dos anos 80, que “American Gigolo” (Paul Schrader, 1980) lhe atribuiu e o sucesso obtido com “Oficial e Cavalheiro” (Taylor Hackford, 1981), interpreta o papel com relativo á-vontade e revela-se bastante convincente no mesmo; Diane Lane, a bonita e sensual actriz, é Vera Cícero, amante de Dutch Schultz, sonha em ter o seu próprio clube nocturno, apaixona-se por Dixie .
A relação entre ambos é difícil, parecem duas crianças a tentar sobreviver num mundo corrupto tanto se ofendem como logo a seguir estão num momento de ternura. É com esta relação difícil, feita de altos e baixos, que o realizador homenageia de forma brilhante a Idade de Ouro de Hollywood. Do elenco fazem ainda parte Bob Hoskins, James Remar, Gregory Hines, Nicholas Cage, Laurence Fishburne, os relativamente desconhecidos Mario Van Peebles e Sofia Coppola, entre outros .
Tecnicamente, Cotton Club”, se exceptuarmos os “Opus Magnânimos” que são “O Padrinho”, “O Padrinho – Parte II” e “Apocalypse Now”, não fica atrás de nenhuma obra do realizador, pelo contrário, nota-se um cuidado e o cunho pessoal do realizador em algumas cenas: Na cena de amor entre Dixie e Vera,enquanto uma espécie de caleidoscópio colorido percorre o rosto de Dixie, os seus corpos são percorridos ligeiramente envolvidos pela sombra duma cortina, num outro “take” da mesma cena , os seus corpos, no acto de amor, são mostrados apenas como silhuetas; Os números musicais do filme são filmados no estilo do cinema musical dos anos 30 e 40. Coppola utiliza por vezes a câmera manual para transportar o público até ao centro da dança.
Tal como em “O Padrinho”, o climax de “Cotton Club” está nas cenas que, aparentemente sem qualquer ligação, adquirem uma nova força: Quando Sandman Williams executa um número de sapateado no Cotton Club, o som dos seus passos, ampliado numa camara de eco, corresponde ás rajadas de metralhadora com que Dutch Schultz é assassinado. A habilidosa montagem em paralelo da dança e do assassínio, fazem o resto.
Não sendo o melhor filme do realizador (nem próximo disso!), “Cotton Club” dá-nos, no entanto, uma visão duma das épocas mais importantes da história americana: os anos 20, o tempo da Lei Seca e poucos realizadores a conseguem retratar tão bem como Coppola.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Twin Peaks - Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer (Pontuação: 8)
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Um "whodunit" em tom David Lynchiano..., 2012-02-10
Em 1992, a curiosidade em torno do novo projecto de David Lynch era grande. Alegadamente, por um “share” fraco nas audiências, tinha sido decidido cancelar a segunda série de "Twin Peaks" (1990-91), estava esta a meio, haveria ainda alguma coisa a dizer ou fazer naquele universo surreal, fantástico e genialmente criado por David Lynch? o realizador respondeu afirmativamente e fez "Twin Peaks - Fire walk with me - Os Últimos sete dias de Laura Palmer".
O filme evolui à volta da investigação do assassínio de Teresa Banks, uma "zé-ninguém", como é referido no filme e também da última semana de vida de Laura Palmer, rainha da beleza de Twin Peaks, com alguns segredos que a tornam "não tão inocente" como a primeira vez que a vemos (um belo plano médio de Laura a caminhar no passeio).
Funcionando como uma espécie de prólogo, já que ligando os dois crimes, que eram o mistério central da série, David Lynch cria a ponte entre as obras; mas pode também ser considerado como uma sequela/epílogo, já que, graças a uma narrativa bem entrelaçada por David Lynch e Robert Engels, são explicados alguns mistérios da série, bem como qual o destino do Agente Dale Cooper que ficara em suspenso no final da segunda série.
Para Lynch o tempo é uma incógnita. Tanto na série como no filme, ele brinca com o conceito quando nos diz que tudo aquilo que vimos pode já ter acontecido ou ainda pode vir a acontecer. A enigmática cena final, quando o espírito de Laura "acorda" no quarto vermelho do Black Lodge, sente-se triste, vê o seu anjo aparecer no ar, começa a chorar e depois ri, a seu lado está o agente do FBI, que lhe passa a mão sobre os ombros e termina com um bonito plano do rosto dela sob um fundo branco, é disso exemplo.
Lynch quis fazer o filme porque ainda havia muito que explorar, e realmente não existem dúvidas que estamos perante um filme situado no universo do realizador: desde a cena inicial, que decorre sob o genérico, quando surge uma televisão ligada, sem emissão e sem som indiciando um silêncio absoluto quebrado logo a seguir pelo partir da mesma, ouvindo-se um grito feminino significando que alguém foi assassinado, ficamos a saber que esse alguém é Teresa Banks; passando pela investigação dos dois agentes especiais do FBI (Chris Isaak, cantor, numa pausa da sua carreira musical e um Kiefer Sutherland, pré "24"),ordenada por Gordon Cole (uma interpretação carismática de David Lynch), ou pelas premonições de Cooper acerca dum futuro ataque do assassino, reveladas a Diane, sua secretária portátil, até terminar com a aparição do corpo de Laura na praia e a referida cena final, é David Lynch no seu melhor, com preciosa ajuda da maravilhosa banda sonora, da responsabilidade de Angelo Badalamenti, um dos colaboradores frequentes de Lynch desde "Veludo Azul" (1986), onde as suas sonoridades marcaram a diferença, demarcando-se do filme, mas ao mesmo tempo completando-o. No caso de Twin Peaks (série e filme), acontece o mesmo, é impossível separar os temas que compôs para algumas das personagens em ambas as obras. Mal ouvimos qualquer acorde, seja do tema principal, seja de alguma personagem, somos imediatamente transportados para o mundo imaginado e criado por David Lynch, até parece que a banda sonora tem vida própria, mas adequada ao ambiente do filme.
Tal como acontecera com a série, a obra quebra algumas das convenções estipuladas para filmes. Por um lado tínhamos uma "prequela" (o termo ainda não se utilizava no inicio da década) em vez duma continuação, por outro lado tínhamos um filme que, pela primeira vez se inspirava numa série e não o contrário.
Praticamente todo o elenco da série transitou para o filme retomando as suas personagens, com as excepções de Lara Flynn Boyle (Donna Hayward), Sherilyn Fenn (Audrey Horne) e Richard Beymer (Benjamin Horne), mas nem todos aparecem na versão final do filme o que provocou um vazio enorme, já que algumas dessas personagens tinham-se tornado familiares ao espectador. Para quem só conheceu o universo Twin Peaks a partir desta obra, não dá por esse vazio; mas quem acompanhou a série e depois viu o filme, sente esse vazio e percebe que o próprio filme se ressente disso.
Lynch originalmente filmou mais de cinco horas de material, mas, receando que o filme fosse um fracasso, o realizador, de acordo com o seu produtor, aceitou reduzi-lo para cerca de duas horas e quinze minutos, ficando grande parte do elenco sem as cenas que tinham filmado, a quem Lynch, pessoalmente, pediu desculpas por tê-los excluído da versão final.
Quando foi apresentado no festival de Cannes, "Twin Peaks - Fire walk with me", recebeu vaias e assobios do público e critícas negativas da quase totalidade da imprensa acreditada no festival. Estreou nos Estados Unidos logo a seguir e fracassou na bilheteira. Aparentemente o efeito "Twin Peaks" extinguira-se logo após o cancelamento da segunda série, que acontecera praticamente um ano antes. Na Europa, onde o realizador sempre foi idolatrado, o filme rendeu razoavelmente. tornaram o filme num sucesso de bilheteira.
O filme ser visto independentemente, apesar de muita coisa remeter para a série, mas, para uma melhor compreensão de todo o universo abarcado por um (o filme) e pela outra (série), deve ver-se a obra como um todo, assim sendo, deve começar-se pelo filme e depois prosseguir com as séries de televisão. É uma experiência inesquecível.
Era intenção de David Lynch fazer mais dois filmes que continuariam e terminariam a história, mas devido ao fracasso nas bilheteiras, resolveu dar por encerrado o assunto.
Ás vezes o melhor mesmo é abandonar uma temática, por muito boa que ela seja ou por muito boa vontade que tenhamos em dar-lhe forma, deixar que o tempo faça o respectivo distanciamento e que a coloque no respectivo estatuto.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Planeta dos Macacos: A Origem (BLU-RAY) (Pontuação: 8)
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O Círculo completa-se, 2012-01-01
No que toca a sequelas, prequelas ou outras “quelas” que tais, quem leu alguns dos meus comentários, sabe que eu não sou grande fâ deste tipo de produção. No entanto, por vezes, existem honrosas excepções que me suscitam alguma curiosidade… e receio também. Assim foi com este “Planeta dos Macacos: A Origem”. Will Rodman é um cientista empenhado em encontrar a cura para a doença de Alzheimer que afecta o seu pai e para isso usa como cobaias chimpanzés e num deles os testes irão desenvolver a sua inteligência ao ponto do resultado final ser completamente imprevisível.
Mais de 40 anos depois da estreia de “O Homem que veio do Futuro” (Franklin J. Schaffner, 1968), quatro continuações (o termo sequela ainda não se utilizava na década de 70), uma série de televisão , “O Planeta dos Macacos” (Tim Burton, 2001), um remake que, segundo o seu realizador, não é um remake mas sim um versão livre do livro de Pierre Boulle com o mesmo nome, a mesma pergunta deve ter assolado o espiríto de todos os que viram este filme (e foram muitos pois foi um dos grandes sucessos do verão de 2011): ainda haveria alguma coisa a contar? Rupert Wyatt disse que sim e provou-o ao realizar um filme que é uma mais-valia para a série, Conseguiu-o graças ao brilhante argumento escrito por Rick Jaffa e Amanda Silver, o qual, sensivelmente a meio do filme, dá uma volta tal que as personagens humanas tornam-se e secundárias e os simíos humanizam-se, tomam conta do filme, nomeadamente nas cenas passadas no asilo dos macacos quando Caesar assume o protagonismo, praticamente sem soltar uma única palavra e, em jeito de homenagem ao filme original, pronuncia (embora não se ouça) duas das frases mais emblemáticas de Taylor, o astronauta que cai nas mãos dos macacos, “Isto é uma casa de doidos!” quando Rodman o deixa no asilo e, quando começa a revolta dos macacos, Dodge Landon (Tom Felton, o Draco Malfoy da saga de Harry Potter) tenta agarrar Caesar e este diz “Tira as mãos de cima de mim, seu humano porco!”. Wyatt vai mais longe, torna este filme uma prequela digna e ao nível da qualidade do primeiro filme ligando as duas obras através de dois pequenos momentos que quase passam despercebidos (um primeiro momento quando se vê uma nave espacial a descolar para o espaço; o outro é quando ficamos a saber que se perdeu o contacto com a nave que ia para Marte)
No campo das interpretações, James Franco e Frida Pinto (a bonita actriz de “Quem quer ser Bilionário?”) interpretam o par romântico com pouco entusiasmo, John Lithgow, como pai de Will, embora secundário, tem uma das suas melhores interpretações nos últimos tempos, mas é Andy Serkis, ao providenciar os movimentos e expressões de Caesar (que já havia feito o Gollum em “O Senhor dos Anéis” e o King Kong no filme de Peter Jackson com o mesmo nome) quem recebe todos os louros. É difícil dissociarmo-nos da nossa própria imagem quando vemos a evolução de Caesar desde simío e cobaia de experiências, passando pelo cativeiro onde tem de aprender a defender-se dos outros, até líder da revolta dos macacos que culmina na grandiosa batalha da Golden Gate de São Francisco cujo desfecho já sabemos qual vai ser. Na última cena vemos aquele que vai ser o pai fundador da nação simía no cimo duma árvore a olhar em direcção a São Francisco, cidade onde irá começar a conquista do planeta deixando a porta aberta a uma possível sequela…o que será contrariado na sequência que surge durante o genérico final.
“Planeta dos Macacos: a Origem” acaba por ser uma agradável surpresa cinematográfica, não desmerecendo em nada o sucesso que teve e, de certa maneira, torna o círculo, desenhado pelos cinco filmes anteriores, perfeito.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Escândalo na TV (reposição) (Pontuação: 10)
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Um Filme antes do seu Tempo!, 2011-08-02
Numa altura em que os media, cada vez mais assumem um papel importante na sociedade, a edição/reposição deste filme vem preencher uma lacuna que existia desde que surgiram em Portugal as televisões privadas na década de 90 do século passado. "Network - Escândalo na TV", embora tenha sido realizado em 1976, já antevia o que estava para chegar.
Howard Beale um dos mais famosos apresentadores de televisão, é informado pelo director da sua estação de que o seu programa, devido aos baixos shares que têm obtido, vai ser suspenso e ele vai ser despedido. Beale anuncia então no seu programa que pretende suicidar-se em directo. Num curto espaço de tempo, assume um protagonismo nunca visto em televisão e torna-se num dos mais sólidos valores da comunicação graças aos seus discursos onde pretende dizer toda a verdade ao público. No entanto há quem não goste da sua nova postura e alguma coisa tem que ser feita.
Realizado por Sidney Lumet, autor de pequenas obras-primas do cinema como "12 Homens em Fúria" (1957), ainda hoje talvez o melhor filme de tribunal da história do cinema; "Serpico" (1973) baseado numa história verídica de corrupção na policia de Nova York; "Um Dia de Cão" (1975) história do assalto a um banco em pleno dia que corre mal mas ganha os favores do público, ou "Um Crime no Expresso do Oriente" (1974), uma das melhores adaptações de Agatha Christie para o grande écran. "Network" é, a todos os níveis, um trabalho de excelência do realizador. Tendo começado na televisão, Lumet conhecia melhor que ninguém este meio daí que a sua realização seja arrojada, satírica e, aliada ao brilhante argumento escrito por Paddy Chayefsky cuja capacidade de antever o que seria o futuro, subtilmente mostra-nos aquilo que hoje vemos: televisões que não olham a meios para atingir os seus fins.
Interpretado por um elenco todo ele excepcional, liderado por Faye Dunaway, William Holden, Peter Finch, Robert Duvall entre outros, apenas três dos actores tenham sido premiados (a única vez que tal havia acontecido tinha sido com "Um Eléctrico chamado Desejo" de Elia Kazan em 1951), todos eles mereciam o seu prémio. Peter Finch ganhou postumamente o Óscar de Melhor Actor (o mesmo aconteceria em 2008 com Heath Ledger pelo papel de Joker em "Batman - Cavaleiro das Trevas" de Christopher Nolan). A sua interpretação de Howard Beale, um apresentador cuja loucura ao saber o seu destino, o transforma numa espécie de Moisés moderno cujo discurso agressivo e inflamado, disparando em todas as direcções (o famoso discurso inflamado que Beale faz em que exulta a multidão a ir ás janelas e sair para a rua gritando "I'm mad as hell and i'm not gonna take it anymore!" mantenho o original em inglês pelo impacto que a cena provoca, quem vir o filme, vai entender o que quero dizer) é uma interpretação muito acima da média e faz-nos ficar com os olhos postos naquela figura quase messiânica. Brilhante é também a interpretação de Faye Dunaway cuja personagem de Diane Christensen ,directora de programas, uma mulher manipuladora, racional e fria e extremamente amoral que tudo fará para obter melhores audiências, nos mostra muito do que é o mundo dos media, neste caso a televisão, nos dias de hoje.
"Network" foi, na altura, considerado uma brilhante crítica social bastante actualizada. Hoje, passados estes anos todos, continua tão actual como então. O discurso de Beale aos seus ouvintes, ainda nos ressoa ao ouvido muito depois dos créditos finais terem passado no écran ou aquela morte em directo, perante uma audiência, diz-nos tanto como a "morte simbólica" dos media no final de "Natural Born Killers - Assassinos Natos" (Oliver Stone, 1994) quando Wayne Gale (Robert Downey Jr.) é fuzilado por Mickey e Mallory (Woody Harrelson e Juliette Lewis) perante a sua própria camera de filmar.
Nomeado para 10 Oscares da Academia, venceu 4: três para as interpretações, além de Finch, também Faye Dunaway e Beatrice Straight ganharam nas respectivas categorias e para o Argumento de Paddy Chayefski, "Network", tinha tudo para ser o grande vencedor da cerimónia de 1976, no entanto perdeu as duas categorias principais para..."Rocky"! vá-se lá saber porquê!!
Um filme quase profético, uma obra-prima do cinema a descobrir, a ver ou a rever!!
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
O Expresso da Meia Noite (reposição) (Pontuação: 10)
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Um Filme "Maldito!", 2010-09-16
Há filmes que, pelo simples facto de existirem, adquirem uma importância única na história da sétima arte. Em 1978, “Expresso da Meia-Noite” foi um desses filmes.
Billy Hayes é um jovem turista americano que se encontra de férias na Turquia com a sua namorada. No dia da partida, Billy compra dois quilos de droga para levar para os Estados Unidos para os amigos. Apanhado por uma rusga policial junto ao avião e depois de ser torturado e interrogado pelas autoridades, começa, para Billy, uma verdadeira descida aos infernos , quando as autoridades Turcas resolvem fazer dele um exemplo condenando-o a 30 anos de prisão.
Realizado por Alan Parker, que fez, entre outros , “Bugsy Malone” (1976), sátira aos filmes de gangsters e interpretado por um elenco de jovens prácticamente desconhecidos, entre os quais se incluía uma jovem chamada Jodie Foster; “Fama” (1980), sobre uma escola de artes e os sonhos dos alunos que lá estudam. Novamente com um elenco desconhecido mas o sucesso obtido pelo filme, que daria origem a uma série de televisão, se encarregaria de lançar para a fama. Em 2009 este mesmo filme foi objecto de um remake de fraca qualidade; “Pink Floyd, The Wall” (1982), adaptação, quase psicadélica, para o grande écran do fabuloso “concept album” dos Pink Floyd com Bob Gelfof no principal papel ou “Mississipi em Chamas” (1988), outro filme-denúncia com uma história verídica que gira á volta do desaparecimento de três trabalhadores dos Direitos Civis na América dos anos 60. Parker filma o interior das prisões turcas com uma violência nua e crua e verdadeiramente atroz: desde as torturas a que são sujeitos os prisioneiros, passando pela droga que circula lá dentro como meio dos prisioneiros se alhearem da realidade, pela homosexualidade latente, sem esquecer os “bufos” que tudo fazem para agradar ao chefe, culminando naquilo com que todos sonham: apanhar o “Expresso da Meia-Noite”, que é como quem diz, a fuga; mas o dito Expresso, como diz,a dado momento, Max (fabuloso John Hurt) a Billy, não passa por aquela prisão.
Feito de grandes cenas como por exemplo quando Billy, depois de Max ser levado para outra ala da prisão, se atira a Rifki, o bufo, enche-o de pancada e depois arranca-lhe a língua à dentada para, literalmente, o silenciar; ou a cena passada na ala dos lunáticos onde Billy, para não enlouquecer, começa a andar em sentido contrário dos outros, não obstante, alguns o tentarem impedir de contrariar a máquina. “Expresso da Meia-Noite” tem magnificas interpretações de Brad Davis, Randy Quaid, John Hurt , Paul Smith, entre outros que contribuem para a elevada qualidade do filme.
Baseado numa história verídica, o argumento escrito por Oliver Stone, antes de se tornar realizador, retrata fielmente as situações por que Hayes passou; desde ter que ir ao para local onde fez a compra da droga para tentar identificar os traficantes , passando pela tentativa de fuga que tenta encetar nessa mesma altura, até ao inferno que passa na prisão turca antes de conseguir fugir para a liberdade. É precisamente a situação que se passava nas prisões turcas que, após a denúncia feita por este filme, foi objecto de investigação por uma comissão de Direitos Humanos enviada pelas Nações Unidas. Após meses de negociações , de muitos recuos e outros tantos avanços, a Turquia cede e entra num processo de troca e libertação de prisioneiros.
Nomeado para seis Óscares da Academia, ganhou dois: um pelo argumento e outro pela Banda Sonora de Giorgio Moroder , “Expresso da Meia-Noite” deu a Alan Parker a alcunha de “Realizador Maldito” pela denúncia que o filme faz e tornou-se um dos primeiros filmes a gerar uma enorme controvérsia que, mais de trinta anos depois da sua estreia, ainda continua presente.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Shutter Island (BLU-RAY) (Pontuação: 10)
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Quanto desta história será real?, 2010-07-19
Dentro do género policial, surgiu, hà uns anos, o sub-género thriller e dentro deste, recentemente, surgiu uma via chamada narrativa fragmentada, em que ao espectador são-lhe mostradas, ao longo do filme, cenas de um quotidiano que à partida pouco ou nada terão a ver com a narrativa principal, mas que de certa maneira, vão influenciar essa mesma narrativa. Em 1987 "Angel Heart - Nas Portas do Inferno" (Alan Parker) foi um bom exemplo desta via, uma vez que tinhamos um detective privado (Mickey Rourke numa das suas últimas boas interpretações) encarregado de encontrar um antigo músico que desaparecera sem deixar rasto e que tinha uma dívida de honra para pagar a alguém que o ajudara no inicio da sua carreira (Robert DeNiro demoníaco). A investigação viria a tornar-se muito reveladora para o detective. Mais recentemente um bom exemplo desta tendência é a trilogia Bourne (Doug Liman & Paul Greengrass, 2002-2007), cujos três filmes são permanentemente atravessados por fragmentos de um passado em que Jason Bourne influenciou ou foi influenciado pelo mesmo.
Boston, 1954, Teddy Daniels e Chuck Aule, dois Agentes Federais são destacados para investigar o desaparecimento de um paciente no hospital psiquiátrico de Ashecliffe situado em Shutter Island. Recebidos de modo hostil, quer pelos guardas, quer pelo pessoal médico e auxiliar, os dois vão-se apercebendo que existe algo mais naquela intituição do que o simples desaparecimento dum doente.
Baseado no romance homónimo de Dennis Lehane, autor de “Gone Baby Gone”, que foi adaptado ao cinema com o título de “Vista pela última vez…” realizado por Bem Affleck (foi a sua estreia como realizador…auspiciosa por sinal…) e de “Mystic River”, realizada por Clint Eastwood e sobre a qual nada há a dizer a não ser que é uma obra-prima.
Em “Shutter Island”, o espectador é levado a questionar-se sobre o quanto daquela história rocambolesca, de doentes que fogem e depois reaparecem sem marca alguma de terem fugido, de traumas de guerra (Daniels, assaltado pelas memórias do massacre que ele próprio ajudou a fazer nos guardas alemães desarmados, o seu passeio nocturno pelo meio dos cadáveres dos judeus), de traumas familiares ( o espírito da sua falecida esposa que Daniels não consegue esquecer e que lhe pede constantemente para a deixar partir), será verdade. Tudo isto surge em imagens fragmentadas ao longo de toda a investigação que decorre durante o filme e que o fazem oscilar entre o policial negro ( o visual e os maneirismos dos Agentes Federais são decalcados dos policiais negros das décadas de 40 e 50 do século passado…não é por acaso que o filme se passa em 1954) e o filme de suspense, ao mais puro estilo de Hitchcock (toda a sequência passada nas escarpas rochosas e na gruta e uma homenagem directa ao mestre do suspense).
Com um elenco de primeira água, encabeçado por Leonardo DiCaprio, no papel de Teddy Daniels, o cada vez mais Scorsesiano actor (já vai na sua quarta colaboração com o realizador), volta a surpreender na forma como interpreta o violento e instável agente federal. O actor agarra o papel e interpreta-o quase na perfeição e está cada vez mais distante daqueles papéis de “teenager” que fizeram o principio da sua carreira. Sabendo nós como o realizador lida com os actores e actrizes conseguindo arrancar deles verdadeiras lições de como actuar (basta lembrar Ellen Burstyn em “Alice já não mora aqui”, Óscar de Melhor Actriz; “Toiro Enraivecido” que deu o Óscar de Melhor Actor a DeNiro; Joe Pesci , Melhor Actor Secundário em “Tudo bons Rapazes”; ou aquele que, certamente, será o papel de da vida de Daniel-Day Lewis em “Gangs de Nova York”), não será de estranhar que DiCaprio se esteja a revelar cada vez mais um bom actor. Mais secundários, mas igualmente impecáveis temos ainda Ben Kingsley, Mark Ruffalo, Emily Mortimer e esse verdadeiro senhor da interpretação que é Max von Sydow, o que torna grande parte de “Shutter Island” um filme feito de interpretações.
Quando vemos, no inicio do filme um navio surgir do meio do nevoeiro numa imagem quase sobrenatural, pensamos que se trata de um filme de terror, mas graças à habilidosa realização de Scorsese, cedo se percebe de que o filme vai muito para além desse género. É aqui que entra a verdadeira genialidade técnica do realizador. Ao longo de três quartos do filme a fotografia é braça, irreal, quase atmosférica, no último terço ela já é brilhante, real. É como se o realizador nos estivesse a dar um filme em dois tempos. O que ele faz nada mais é do que manipular as personagens e os seus sentimentos ao colocar todos estes ingredientes exactamente onde o espectador quer que elas sejam colocadas, excepto nesse fabuloso e genial plano final do farol onde, tudo aquilo que dávamos como adquirido ao longo do filme, pode não ser exactamente assim e adquire uma nova realidade.
Não sendo um filme de fácil interpretação, “Shutter island” é, na realidade, um filme complexo, que exige alguma atenção ao pormenor, mas uma vez que Martin Scorsese é um realizador que gosta de contar histórias e que sempre as soube contar, tais dificuldades não se põem. A não perder.
Uma coisa temos a certeza depois de se ver “Shutter island”: Um farol nunca mais será a mesma coisa!
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Invictus (BLU-RAY) (Pontuação: 9)
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Mais uma Aposta Ganha!, 2010-07-07
Em 1963 Martin Luther King Jr., num discurso para cerca de 200.000 pessoas em que apelava para direitos iguais e ao fim da descriminação racial, disse a dado momento “Eu tenho um Sonho”…não chegou a ver esse sonho realizado, pois foi assassinado em 1968. Quase 30 anos depois, um outro homem, noutro continente, fez o mesmo apelo e conseguiu realizar o sonho.
África do Sul, 1990, depois de mais de 26 anos de prisão, o activista negro Nelson Mandela é libertado. Por entre muita polémica, com o país dividido pelo espectro do apartheid e quase à beira da guerra civil, Mandela é eleito presidente da república em 1994 e tem que resolver a profunda divisão que abala o país antes deste ser anfitrião do campeonato do mundo de râguebi. Ele tem então uma ideia que quer por em práctica custe o custar…
Em “Invictus” existem dois momentos que são os mais marcantes do filme: o primeiro, logo no inicio, após a libertação de Nelson Mandela, este é aplaudido pela população negra em geral, quando a caravana passa numa estrada que divide dois campos onde num jogam futebol jovens negros que aplaudem a passagem dos veículos enquanto gritam por Mandela; no outro campo, uma equipa de brancos treina râguebi e mostram o seu descontentamento pelo acontecimento que ocorrera nas palavras do treinador da equipa. O segundo momento acontece na cena em que na mesma sala estão os representantes negros do recém-eleito presidente e uma equipa de guarda-costas brancos e ambas as equipas estão de costas viradas uma para a outra a lerem o calendário das actividades do presidente. É sobre estas duas cenas, ambas representando o que era a Àfrica do Sul , que “Invictus” se ergue e caminha solenemente.
Realizado pelo veterano Clint Eastwood, autor de “As Bandeiras dos nossos Pais” e “Cartas de Iwo Jiwa” (2006), diptíco sobre a sangrenta batalha de Iwo Jiwa; “Gran Torino” (2009) obra-prima sobre o comportamento do ser humano, “A Troca” (2009) baseado numa história verídica de um desaparecimento ocorrida em Los Angeles na década de 20 do século passado, “Mystic River” (2003) sobre amizade num bairro dos subúrbios de Bóston, ou “Imperdoável” (1992), obra-prima contemporânea em forma de epilogo do western, género incontornável do cinema.
O realizador filma com sobriedade e não usa subterfúgios (apesar da cena do Boeing 747 que sobrevoa o estádio, indiciando outra coisa…). Não força a acção e até as cenas de râguebi estão bem filmadas e doseadas ao longo do filme. Percebe-se que há uma cumplicidade entre o desporto e a câmara, como se esta fosse um jogador captando as atitudes do colectivo e de cada elemento de ambas as equipas. É como aquilo que eu disse em outro comentário: Eastwood não sabe fazer filmes maus, e “Invictus” é mais um exemplo dessa realidade.
Brilhantemente interpretado por Morgan Freeman sobre quem recai a responsabilidade toda do filme e, uma vez mais, o actor mostra estar á altura do desafio. Ligado ao projecto desde que Clint Eastwood havia anunciado o seu interesse em fazer um filme sobre o activista, Freeman foi sempre a primeira escolha do realizador e fica provada uma vez mais a clarividência de Eastwood nas escolhas que faz. Morgan Freeman ficará para sempre ligado a este papel que é, sem dúvida nenhuma, o papel da sua vida (mesmo não tendo ganho o Óscar de melhor Actor para o qual foi nomeado). Ele é tão convincente na sua interpretação (para a qual levou mais de um ano a preparar-se e que incluíram várias reuniões com o próprio Mandela, que, diz-se, ter adorado a interpretação) que se fecharmos os olhos, ouvirmos um discurso de Mandela e depois ouvirmos Freeman a dizer o mesmo discurso, não conseguimos distinguir um do outro!
Matt Damon faz o papel de François Pienaar, capitão da selecção de râguebi da Àfrica do Sul e sobre quem recai a responsabilidade de vencer o campeonato do mundo e ajudar ao esforço de união do país. Damon interpreta o seu papel com grande carisma, onde nem sequer lhe falta o sotaque e se nota bem o corpo musculado que precisava ter para fazer o seu papel (diz-se também que foi o próprio Pienaar que o ajudou a preparar-se para a interpretação) e vence mais esta aposta.
Mesmo não sendo uma obra-prima, nem sequer o melhor filme de Clint Eastwood, “Invictus” será sempre visto como um esforço para tentar contar a história de um período conturbado de um país que esteve demasiado tempo dividido e da pessoa que ajudou a acabar com essa divisão e, visto deste prisma, o filme é nitidamente uma aposta ganha.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Tempo de Glória (BLU-RAY) (Pontuação: 10)
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A Glória de um Épico!, 2010-06-14
De tempos a tempos surge um filme que nos traz á memória os bons velhos épicos que assistíamos com os nossos pais e que faziam as delícias de quem ia ao cinema nas décadas de 50 e 60 do século passado. “Tempo de Glória” foi um desses filmes.
Realizado em 1989, ano de todas as mudanças no panorama internacional, feito na esteira do sucesso obtido na televisão por “Norte e Sul” ( David L.Wolper, 1985), este filme mostrou um outro lado da Guerra de Secessão Americana que ainda não havia sido explorado antes.
O Coronel Robert Gould Shaw, héroi da Guerra de Secessão, oferece-se como voluntário para comandar a primeira companhia de soldados negros contra o exército confederado, mesmo conhecendo todos os dissabores que essa decisão lhe possa trazer…
Realizado por Edward Zwick, realizador de “Lembras-te da última noite?” (1986) em que um homem e uma mulher tentam manter uma relação amorosa apesar das suas diferenças de opinião e das opiniões dos outros, filme produzido por John Hughes, rei da comédia na década 80 do século passado; “Coragem debaixo de Fogo” (1996) em que do resultado duma investigação, permitirá que uma oficial do exército seja postumamente condecorada; “Diamante de Sangue” (2006) cuja acção se centra na guerra civil da Serra Leoa, onde um mercenário houve uma história sobre um pescador ter encontrado um grande diamante. Zwick, formado na televisão, aplica os conhecimentos aí adquiridos em cenas de acção muito bem encenadas, como seja por exemplo a primeira vez que a companhia entra em acção numa escaramuça com as forças confederadas; ou o ataque ao Fort Wagner, cujo massacre, quase integral da companhia, lhes dá a entrada na História (a “Glory” de que fala o título original do filme). É uma cena extremamente bem filmada, muito bem fotografada e com a banda sonora de James Horner a dar o toque necessário para que a cena final (em que os nossos hérois conseguem subir a muralha do forte) se torne na imagem mais poderosa do filme.
Com um elenco onde se destacam os nomes de Matthew Broderick, como Coronel Robert Shaw, abandonando com este filme os papéis das comédias que preencheram o seu principio de carreira, o actor tem aqui talvez a sua melhor interpretação; Cary Elwes como adjunto de Shaw e uma boa prestação do actor; Morgan Freeman,como o coveiro Rawlins que ao se alistar vai-se transformar na figura paternal de toda a companhia e uma espécie de mediador de conflitos, embora secundária, dá uma interpretação ao seu melhor nível. O destaque vai, claro, para Denzel Washington, que interpreta o soldado Trip, o racista incomformado com a sua situação, mas que no ataque final, ao ver o comandante morrer ao seu lado, transporta a bandeira dos Estados Unidos até à muralha, dá um verdadeiro show de interpretação que lhe mereceu o Óscar de Melhor Actor Secundário do ano, vitória conseguida na magnifica cena em que Trip é chicoteado, depois de tentar desertar, perante o olhar de toda a companhia (o seu olhar, misto de ódio e duma dor que está para além de qualquer compreensão, é outro grande momento do filme) e aceita a sua condição sem vacilar.
Vencedor de 3 Óscares da Academia, “Tempo de Glória” foi um enorme sucesso de bilheteira e um daqueles filmes que vale sempre a pena ver e, por ser baseado em factos verídicos (nas cartas que Shaw escrevia à sua mãe e de que se ouvem excertos ao longo do filme), acaba por ser também uma lição de história sobre uma guerra que envergonhou uma nação.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Os Incorruptíveis Contra a Droga (reposição) (Pontuação: 10)
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Realista quanto baste!, 2010-05-28
Em 1968, “Bullit” realizado por Peter Yates, elevava o género policial a um novo patamar: Frank Bullit, Detective da Policia de San Francisco, é escolhido para guardar um perigoso mafioso que tem de testemunhar em tribunal; até aqui nada de novo no género, então quais os motivos que levaram a que este filme se destacasse de todos os outros do mesmo género? Para além de Jacqueline Bisset e Steve McQueen (consoante os gostos de cada pessoa!), uma excepcional perseguição automóvel filmada a grande velocidade nas ruas acidentadas de San Francisco elevou “Bullit” a patamares nunca antes vistos no cinema de acção e muito particularmente no género policial. Isto até surgir “French Connection” três anos depois.
No final da década de 60 do século passado, Nova York vivia uma ressaca de Heroína como nunca tinha acontecido. Nas ruas corria o boato de que um grande carregamento estava para chegar. Popeye Doyle, Detective da brigada de narcóticos da policia de Nova York , homem bruto e de métodos pouco ortodoxos e o seu parceiro Detective Buddy Russo, tomam conhecimento desse boato e resolvem investigar o que é que está por detrás dele…
Baseado numa história veridíca, “The French Connection”, que em português recebeu o título pouco apelativo de “Os Incorruptíveis contra a Droga”, é um filme violento, não só pela temática que aborda, como pelo maneira que é abordada: de uma maeira frontal e directa (veja-se a cena em que os potenciais compradores de Heroína assistem á demonstração da sua pureza no quarto do hotel)
O realizador William Friedkin tira partido da aprendizagem que fez nos anos em que filmou na televisão e aplica esses conhecimentos de uma forma realista, quase sempre de camâra na mão (atente-se na cena da perseguição de gato e do rato que começa á saída do hotel onde Charnier está instalado e vai terminar de um modo absolutamente fabuloso no metro em Central Station com o acenar de mão do francês num tom de gozo ao frustrado detective que corre ao longo do metro em andamento; ou logo no inicio quando Doyle e Russo perseguem um suspeito ao longo das ruas), técnica que seria, anos mais tarde utilizada em muitas produções principalmente para televisão como “Hill Street Blues”, NYPD Blues ou até “24”.
Gene Hackman, Roy Scheider e o veterano actor Fernando Rey são os protagonistas deste excepcional filme policial , as suas interpretaçõs são fabulosas, principalmente Gene Hackman no papel de Popeye Doyle, com o qual ganhou o seu primeiro Óscar de Melhor Actor (o segundo foi como Melhor Actor Secundário em “Imperdoável” a obra-prima de Clint Eastwood), Detective, cuja perseguição dos seus objectivos é tão intensa que não olha a meios para os alcançar: veja-se a cena final quando Doyle entra nas ruínas da fábrica ( de certa maneira essas ruínas simbolizam o mundo de Doyle e também o nosso), aos tiros e completamente obcecado em apanhar o seu inimigo, nem se detem quando vê um seu companheiro morto…a última imagem é das mais significativas de todo o filme: uma sala em ruínas, sem ninguém e onde se ouve um tiro antes do écran ficar negro e um epilogo contar o resto da história.
Filmado com grande intensidade, é, no entanto, na sequência da perseguição de Doyle ao metro de superfície que está o grande momento do filme e é aqui que a obra descola de todas as outras. Toda a sequência é filmada em tempo real e numa só vez (ou seja a duração da cena corresponde exactamente ao que foi filmado), utilizando diversas camâras espalhadas ao longo do cenário, no carro e no comboio. O resultado final é fruto de um hábil trabalho de sala de montagem (também premiado com o respectivo Óscar). A cena é um verdadeiro must cinematográfico, o espectador é envolvido na cena e não são raras as vezes em que nos desviamos dos potenciais obstáculos que vão surgindo no trajecto tal como se fôssemos o próprio Doyle ao volante. Extremamente excitante e absolutamente realista. Muitas vezes imitada mas nunca ultrapassada.. Friedkin voltaria a filmar duas excitantes perseguições automóveis em “Viver e Morrer em Los Angeles” (1985) e “Jade”(1995); “Ronin” (John Frankenheimer, 1999) também teria a sua perseguição automóvel nas ruas de Paris, mas nenhuma delas se revelou tão importante como a de “French Connection”.
Vencedor de cinco Óscares da Academia, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador, “French Connection” foi um grande sucesso de bilheteira, que levou a uma continuação (o termo sequela só apareceria anos mais tarde) intitulada “French Connection II” (John Frankenheimer, 1975) com Gene Hackman e Fernando Rey a retomarem os seus papéis e com a acção a decorrer em Marselha.
Apesar de datado (todo o visual do filme espelha bem a época em que foi feito), “French Connection” é uma obra-prima do cinema, um filme-referência da década de 70 do século passado.
A ver sempre!
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Estado de Guerra (BLU-RAY) (Pontuação: 10)
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O Clássico que ainda não o é!, 2010-04-10
Prácticamente em todas as guerras que aconteceram no século XX, o cinema soube, umas vezes bem, outras mal, transpô-las para o grande écran. Já com a primeira década do novo século decorrida, ainda o cinema continua a reescrever a história do anterior, formando assim uma espécie de memória colectiva entre os dos séculos. mas este também já teve o seu quinhão de guerras, algumas delas ainda decorrem e estão agora a começar a ser transpostas para o grande écran.
No Iraque, um esquadrão de Élite do exército americano tem a seu cargo a perigosa missão de desarmar bombas nas zonas de combate. O Sargento William James é um desses homens que chega para liderar aquele esquadrão depois da morte do seu chefe e o seu quase à-vontade naquele ambiente choca com todo o cuidado que os seus companheiros utilizam nas missões que cumprem dia-a-dia.
Partindo do romance que o jornalista Mark Boal escreveu (e adaptou para o grande écran) acerca dos tempos em que acompanhou o exército americano na linha da frente, Kathryn Bigelow, realizadora de "Ruptura Explosiva" (1991), um thriller policial carregado de adrenalina com Keanu Reeves e Patrick Swayze e de "Estranhos Prazeres" (1995), um thriller de ficção cientifíca quase profético com Ralph Fiennes, Angela Basset e Tom Sizemore, fez um filme enérgico. Evitando tomar partido em qualquer dos lados do conflito, Bigelow centra o seu filme num registo quase documental (embora não tão realista como "Redacted - Censurado" de Brian DePalma, 2007), com sentido de acção e momentos de suspense muito bem conseguidos através duma montagem minuciosa e pormenorizada (a cena da primeira missão de James ou o único momento de combate no deserto são disso exemplo). Hà, no filme, para além do lado bélico, um lado humano que Kathryn Bigelow também consegue captar ( a cena em que James, comovido, trata do corpo do miúdo bombista como se de um filho seu se tratasse; ou quando o mesmo James telefona para casa só para ouvir a voz dos seus entes queridos; ou ainda as cenas passadas nas casernas e as conversas e brincadeiras que eles têm entre si), o que torna a obra mais interessante.
Com um elenco prácticamente desconhecido onde sobressai o nome de Jeremy Renner (nomeado para o Oscar de Melhor Actor) que interpreta William James, cuja frieza no campo de batalha (neste caso, no desarmamento de bombas) só é ultrapassada pelas suas próprias fraquezas (a raiva que sente quando vê o que fizeram a Beckam, o miúdo por quem sente alguma amizade).
A interpretação de Renner é firme e credível (a já citada cena com o corpo do miúdo bombista ou aquela em que James, num supermercado não consegue decidir que cereais deve comprar para o filho, servem de exemplo da maneira como o actor agarrou a personagem). No elenco surgem ainda nomes conhecidos como Ralph Fiennes, David Morse, Evangeline Lilly ou Guy Pearce em interpretações secundárias.
Nomeado para nove Óscares da Academia, "Estado de Guerra" venceu seis, incluindo o de Melhor Filme do Ano e Melhor Realização e fez história. Após ser apenas a quarta mulher a ser nomeada para o prémio de Realização, depois de Barbra Steisand por "Yentl" em 1983; Jane Campion por "O Piano" em 1993 e Sofia Coppola por "Lost in Translation" em 2003, Kathryn Bigelow tornou-se na primeira mulher a ganhar o Oscar de Melhor Realização.
Abordando uma temática pouco habitual neste género e tratando-se de um primeiro filme sobre uma guerra que ainda é muito recente, "Estado de Guerra", não será o filme definitivo sobre o conflito do Iraque, longe disso, é uma contribuição para o estudo do conflito e nesse campo é um filme obrigatório que só o tempo se encarregará de elevar ao estatuto que merece.
a não perder!
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Lawrence da Arábia (Pontuação: 10)
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O Melhor Filme de Aventuras da História do Cinema!, 2010-03-11
No inicio da década de 60 do século passado, o cinema começava a sofrer uma das suas crises pontuais. Por um lado, as superproduções cinematográficas tinham entrado em decadência desde que “Ben-Hur” (William Wyler, 1959), exemplo maior das superproduções, na cerimónia dos Óscares arrasara a concorrência vencendo onze prémios em doze possíveis e se tornou campeão absoluto durante quase 40 anos. Por outro, a televisão começara a crescer e ameaçava roubar espaço ao cinema com os seus meios técnicos inovadores. Pontualmente surgiram filmes que devolviam ao cinema a dignidade do grande espectáculo e recuperavam um pouco esse espaço que, na década anterior, lhe tinha pertencido inteiramente. “Lawrence da Arábia” é um desses exemplos.
Thomas Edward Lawrence é um Oficial do exército Britânico que, descontente com a vida que leva, aceita ir investigar a revolta das tribos árabes contra os turcos durante a Iª Guerra Mundial. Sentindo uma atracção inexplicável pelo deserto, vai ter uma intervenção decisiva no desenrolar dos acontecimentos.
Magistralmente realizado por David Lean, foi o seu projecto seguinte a seguir ao multipremiado “Ponte do Rio Kwai” (1957) que era um excepcional exercício sobre comportamento humano em tempo de guerra tendo como pano de fundo um campo de prisioneiros japonês. “Lawrence da Arábia” insere-se perfeitamente na temática da obra anterior do seu realizador. Graças ao perfeccionismo latente de Lean, pode dizer-se que este filme prolonga o choque dos comportamentos que percorrem todo o universo de “A Ponte do Rio Kwai”, apesar de ambos se situarem em guerras e cenários diferentes, esse conflito está sempre presente mesmo quando se estende ao cenário e personagem principal de todo o filme: o deserto. Essa percepção faz-se na cena em que Lawrence simplesmente apaga o fósforo com um ligeiro sopro e a acção passa para o deserto, assinalando o seu inicio um magnifico nascer do sol e a excepcional e inconfundível banda sonora de Maurice Jarre. É difícil, hoje em dia, dissociar as orquestrações de Jarre das belissímas imagens que Lean nos proporciona ao longo das quase quatro horas de duração do filme. Nunca o deserto foi tão bem filmado e nos pareceu tão interminável como neste filme. Todo o filme é um desfilar de cenas brilhantemente construídas como por exemplo o primeiro encontro entre Lawrence e o Xerife Ali com este a aparecer no horizonte e a aproximar-se lentamente ante a curiosidade do militar inglês; a travessia do deserto a caminho de Aqaba; a própria movimentação das tropas de Auda; só para citar alguns dos exemplos marcantes do filme.
As cenas de acção são excepcionalmente bem encenadas e coreografadas. Hà, para além do cuidado posto na realização, um sentido de espectáculo próprio de uma superprodução nas cenas como por exemplo na do ataque a Aqaba; a sabotagem das linhas férreas; ou na carga que Lawrence manda fazer sobre as tropas Turcas em retirada; para além da própria tomada de Damasco que é, talvez, a cena mais bem conseguida de todo o filme.
Baseado na obra homónima de T.E.Lawrence “Os Sete Pilares da Sabedoria”, onde somos confrontados com as impressões, os pensamentos e as opiniões do militar sobre o conflito entre Àrabes e Turcos, onde ele participou activamente. Personagem complexa como ele próprio se apresenta, ninguém, tal como as pessoas que, no inicio do filme, assistem ao seu funeral e falam sobre ele (a última das quais é irmão, na vida real, de T.E.Lawrence), chegou realmente a conhecê-lo.
Interpretado por um elenco de luxo onde, para além de actores consagrados como Alece Guiness, Omar Sharif ou Anthony Quinn, se encontrava um quase estreante de nome Peter O’Toole sobre quem caiu a enorme responsabilidade de interpretar o papel de Lawrence, o que faz com considerável sucesso, mercê de algum treino adquirido nos palcos londrinos e que iria marcar a carreira do actor para todo o sempre. Apesar de já ter uma carreira longa, onde interpretou todo o género de personagens, desde vilões a aventureiros passando por papéis dramáticos e cómicos, O’Toole nunca conseguiu desvincular-se desta personagem.
Produção acidentada, conheceu vários momentos em que esteve para nunca acontecer principalmente devido a conflitos que opunham o realizador David Lean ao seu produtor Sam Spiegel. O próprio filme acabou por ser vitima disso mesmo: Pouco tempo antes da estreia, Spiegel achou que o filme era grande demais e decidiu reduzir-lhe a duração. Contra os protestos do realizador, o filme foi reduzido para uma versão de 188 minutos e foi essa a versão que estreou em 1962 e que se manteve até meados da década de 70, quando o filme já era famoso e David Lean já não realizava devido ao fracasso comercial e critíco que tinha sido “A Filha de Ryan” (1970), o filme foi então remontado e a sua metragem aumentada para 210 minutos e feita nova estreia com considerável sucesso. Finalmente em 1989, Lean, com a ajuda de vários realizadores entre os quais se contavam Martin Scorsese, Steven Speilberg, Francis Ford Coppola e George Lucas, confessos admiradores do realizador, conseguia restaurar o filme na sua duração real de 222 minutos, com imagem e som, principalmente do material novo, melhorado. O sucesso obtido por esta nova restauração foi enorme levando a uma nova estreia, desta vez com pompa e circunstância, conseguindo o feito de chegar a um novo público e a consequente elevação do filme à classificação de obra-prima do cinema.
Filme de aventuras, filme de guerra, drama, “Lawrence da Arábia” foi galardoado com sete Óscares da Academia, incluindo Melhor Filme do Ano e Melhor Realizador . Considerado como um dos melhores filmes de sempre, presença obrigatória em qualquer Dvdteca, continua, passados estes anos todos, a ser um dos melhores exemplos do género que se chamou superprodução e é sem dúvida nenhuma o melhor filme de aventuras da história do cinema.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
2010 - O Ano do Contacto (BLU-RAY) (Pontuação: 6)
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A Montanha pariu um Rato!, 2010-01-28
Aproveitando o facto de se estar no ano mítico descrito por Arthur C.Clarke no seu fabuloso livro "2010: Segunda Odisseia", nada melhor do que comentar o filme do mesmo título realizado em 1984 (outra data mítica...será coincidência?) por Peter Hyams.
Passaram-se nove anos desde que a "Discovery" foi estacionada em órbita de Júpiter por Dave Bowman, único sobrevivente da tripulação, pouco antes de desaparecer. Num mundo á beira dum novo confronto mundial, a nave espacial russa "Leonov", levando a bordo uma expedição conjunta americano-soviética, parte para tentar descobrir o que aconteceu realmente em 2001...o que é o Monólito Negro? e que significado terão as ùltimas palavras de Bowman antes de desaparecer:"Meu Deus, está cheio de estrelas!"?
Baseado no romance do mesmo título, que Arthur C.Clarke nunca quis escrever por achar que nada mais havia a escrever sobre o assunto e que só o fez após grande insistência dos seus leitores, parecia que as questões levantadas no filme anterior iriam ser finalmente respondidas...engano! porque Arthur C.Clarke apenas respondeu a uma parte das questões, reservando o resto das respostas para os volumes subsequentes. Quanto ao filme de Hyams...receio bem que a montanha tenha parido um rato!
Quando em 1983 se começou a falar na possível adaptação do romance ao cinema, o primeiro nome que veio à baila foi o de Stanley Kubrick ou não tivesse sido ele o realizador dessa obra-prima seminal chamada "2001:Odisseia no Espaço" (1968). Kubrick recusou alegando, tal como Clarke, que nada mais havia a dizer e o projecto parecia destinado a ir parar à gaveta. Surge então o nome de Peter Hyams que, sendo fan da obra de Kubrick, disponibilizou-se de imediato a realizar a adaptação caso fosse para a frente. Peter Hyams tinha já realizado um curioso "Capricorn One" (1978) onde se contava a história de uma chegada a marte ficticia; "Outland - Atmosfera Zero"(1981) variação de ficção científica de "O Comboio apitou Três Vezes" (Fred Zinnemann, 1953) onde Sean Connery fazia o papel que fora de Gary Cooper; ou ainda "Star Chamber" (1983) um original thriller de tribunal com Michael Douglas, parecia ser o realizador indicado para tornar os cenários imaginados por Clarke numa realidade. Mas Hyams elevou demasiado a fasquia e algures durante a produção perdeu o norte e perdeu-se nos meandros da obra. Ao esquecer, por exemplo, todo o capítulo do livro dedicado á nave chinesa "Tsien" que despoleta toda a situação que levará a desenvolvimentos importantes, trocando-o por uma situação potencialmente explosiva na terra ( as duas potências, Estados Unidos e Rússia prestes a entrar em guerra...quantas vezes é que já vimos este filme?) banalizou um filme que nunca o deveria ser. Quando comparado com o filme de Kubrick, "2010" fica inevitávelmente a perder. Peter Hyams pretendeu simplificar uma coisa que não o é (quem tenha lido o livro perceberá aquilo que quero dizer) e com essa opção perdeu a aposta. Mas se o próprio autor, que colaborou na adaptação do livro e faz uma aparição Hitchcokiana no filme ( quando Heywood Floyd se encontra com o seu amigo em Washington, Arthur C.Clarke e o velho que está a dar de comer aos pombos sentado no banco ao lado), ficou satisfeito com a abordagem de Hyams, quem somos nós para dizer o contrário?
"2010-Ano do Contacto" acaba por ser um filme honesto, sem pretenções a obra-prima, que se vê com agrado e do qual não se pretenda tirar ilações. Feito com todos os meios disponíveis na altura, bons efeitos especiais (toda a "Discovery" teve de ser reconstruída a partir das imagens do filme de Kubrick, pois os planos e as maquetes tinham-se perdido) resultou num fime mediano, que custa a encontrar um rumo. A realização só arranca a partir do meio para o final quando se começa a ver algum resultado e dedicação, graças principalmente aos efeitos especiais. Apesar do elenco onde pontuam os nomes de Roy Scheider, Helen Mirren, John Lithgow, Bob Balaban e até Keir Dullea, o Dave Bowman de 2001 que aqui repete o seu papel.
Se bem que seja um bom entretenimento, "2010" fica aquém das expectativas...o que é uma pena! pois o autor e o livro mereciam um filme melhor.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Taxi Driver (Pontuação: 10)
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A Alienação Urbana!, 2010-01-06
Nova York tem sido um cenário previlegiado da sétima arte. Começou em 1926 quando Fritz Lang se encantou com o seu visual e a escolheu para cenário dessa obra prima incomparável que é "Metropolis" (1927). Sucessivamente cimos a cidade em ruínas, ser destruída por armas nucleares, por tempestades meteorológicas, inundada, povoada por superheróis de banda desenhada e continuou sempre a ser a cidade que nunca dorme e nunca perdeu o seu encanto por mais catástrofes que tenha sofrido. Se exceptuarmos Woody Allen e o seu "Manhattan" (1979), nunca houve outro cineasta que a filmasse tão bem como Martin Scorsese.
Travis Bickle é um ex-combatente do vietname, mentalmente instável e que sofre de insónias. Para tentar resolver o seu problema, aceita um emprego como motorista de táxi em Nova York, cujas ruas percorre, dia após dia, onde assiste, impotente, à decadência humana. O contacto com uma jovem prostituta faz com que decida agir independentemente do que lhe possa acontecer.
Excepcionalmente bem realizado por Martin Scorsese, "Taxi Driver" é, juntamente com "Touro Enraivecido" (1980), "Tudo Bons Rapazes" (1990) e Gangs de Nova York" (2002), uma obra-prima sem mácula. Apesar de datado, o filme não envelheceu e, pelo contrário, continua mais actual que nunca. O argumento brilhante escrito por Paul Schrader reflecte muito da época em que o filme foi feito: Enquanto a sombra do escândalo de Watergate paira discretamente sobre o filme, as cicatrizes deixadas pela guerra do Vietname na sociedade estão patentes em Travis Bickle ( a sua insónia, a sua constante procura de diversões como os filmes pornográficos e a frustração por não ter uma vida normal são disso exemplo) e a política está soberbamente representada na figura do Senador Charles Pallantine que, ao pretender atingir a nomeação para as eleições presidênciais que se aproximam, promete mudanças dramáticas na sociedade (já ouvimos isto em qualquer lado não ouvimos?).
Graças ao trabalho meticuloso de Scorsese, nunca o anónimato foi tão bem reflectido no écran (as cenas de multidão filmadas em câmara lenta com a voz off de Bickle e a sua presença anónima, qual zé-ninguém à procura da sua identidade, são absolutamente brilhantes). Raramente vimos no cinema um táxi tão bem filmado (prácticamente não hà nenhum ângulo, nenhum pormenor da viatura que não seja filmado) e também percebemos porque é que um táxi pode ser confortável e seguro (quando Bickle anda nas ruas, estas são estranhas e ameaçadoras se nos pusermos no papel do condutor/passageiro e as vemos de dentro para fora) e perigoso (a cena do passageiro psicopata que quer matar a mulher é um dos momentos mais tensos do filme e que espelha perfeitamente a sociedade da época mas que também pode ser aplicada aos dias de hoje), "Taxi Driver" permanece hoje como um dos filmes mais perturbantes da década de 70 do século passado.
Magnificamente interpretado por Robert DeNiro, que já trabalhara com Scorsese em "Cavaleiros do Asfalto" (1973) e com quem veio a estabelecer uama parceria realizador/actor em, até agora, mais seis filmes, cuja entrega ao personagem do motorista de taxi mentalmente instável foi total e representou mais um degrau nas ascensão do jovem actor que já ganhara um Óscar da Academia pelo seu fabuloso desempenho como Actor Secundário nessa obra-prima do cinema chamada "Padrinho - Parte II" (Francis Ford Coppola, 1974). Aliás o seu perfeccionismo obsessivo em viver intensamente as personagens que representa (para "Taxi Driver, andou semanas com os motoristas de Nova York para aprender a falar como eles, a viver como eles e até a maneira de conduzir um taxi numa grande cidade) é famoso e viria a recompensá-lo com com um segundo Óscar da Academia para Melhor Actor em "Touro Enraivecido" (1980). A sua interpretação é tão intensa e credível que até o próprio realizador quis vê-lo "in loco" (o passageiro psicopata que Travis transporta é o próprio Scorsese) e que já tinha tido outra aparição no filme (quando Travis Bickle sai da sede de candidatura de Pallantine a primeira vez que lá vai, é o individuo que está sentado na beira da escada). Inesquecível e famoso é o monólogo que Bickle mantém ao espelho quando procura uma pose de duro: as palavras "estás a falar comigo?" foram imitadas até à exaustão e continuam a constituir outro grande momento da carreira do actor; assim como a cena quase no final, em que depois do tiroteio no bordel, vemos um grande plano de Travis Bickle satisfeito por ter salvo Iris (Jodie Foster num dos seus primeiros papéis no cinema) da prostituição, mas frustrado por não ter balas para se suicidar e, num plano elevado de câmara que vai recuando, vemos o massacre levado a cabo pelo motorista de táxi e que só termina já na rua com a chegada das ambulâncias e no meio da curiosidade geral: genial e perturbante o trabalho da dupla actor e realizador.
A completar o elenco do filme temos ainda Harvey Keitel (outro dos actores habituais na filmografia de Scorsese), Peter Boyle, Cybill Shepherd, Albert Brooks que também contribuem para tornar este filme obrigatório.
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, "Taxi Driver" posicionava-se para a corrida dos Óscares desse ano ao ser nomeado para quatro Óscares (Martin Scorsese nem sequer foi nomeado!) mas acabaria por ser derrotado por "Rocky"(!) (John G.Avildsen) que levaria os prémios principais...incompreensível!
Uma daquelas presenças obrigatórias em qualquer top de cinema, "Taxi Driver" continua a ser um dos filmes mais amados do seu realizador, apesar de ignorado na altura, teria de esperar ainda trinta anos até ser reconhecido pelos seus pares por um filme menor, se bem que não menos importante, na sua filmografia ("The Departed: Entre Inimigos", 2006), pena é que não o tenha sido hà mais tempo.
Ver filmes com esta qualidade é cada vez mais dificil.
Absolutamente obrigatório!
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Apocalipse Now (Pontuação: 10)
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Um Filme à frente do seu Tempo!, 2009-12-29
A Guerra do Vietname deverá ter sido o acontecimento que mais marcou o cinema nas últimas três décadas do século XX. Na sua extensa filmografia, podemos encontrar os melhores e os piores exemplos dessa guerra. Mas obras marcantes, usualmente conhecidas como obras-primas, bastam apenas os dedos duma mão para as enumerar. "Apocalypse Now" é o exemplo mais marcante. É um dos filmes que vem logo à cabeça quando se fala do Vietname.
O capitão Benjamin Willard encontra-se de licença quando é contactado para levar a cabo uma missão perigosa. Deve ir até ao Cambodja localizar e eliminar um coronel renegado das forças especiais americanas que se entronizou no meio duma tribo local. Ao longo do percurso que faz enquanto sobe o rio, Willard estuda o seu alvo e questiona-se sobre o porquê da sua escolha.
Hà uma cena logo no inicio, onde nos é apresentado o tema, à volta do qual girará todo o filme: É a cena em que Willard é levado ao comando, onde lhe é explicada, pelo coronel Lucas (Harrison Ford num papel secundário e discreto), a missão que vai levar a cabo; estão presentes além de Lucas, um civil de nome Jerry que se percebe pertencer aos serviços secretos americanos, e o general Corman (G.D.Spradlin); a dado momento, Corman diz para Willard "...porque existe um conflito no coração de cada ser humano entre o racional e o irracional, entre o bem e o mal...e o bem nem sempre triunfa (...)...todo o ser humano tem o seu ponto de ruptura...você e eu temos...Walter Kurtz atingiu o seu e óbviamente enlouqueceu..." e é precisamente sobre este conflito permanente entre o racional e o irracional que "Apocalypse Now" caminha.
Desde o seu inicio, com as imagens de destruição, o som das pás dos helicópteros aos quais se sobrepõe o tema "The End" dos "The Doors" e que lentamente se vão dissolvendo no som e na imagem duma ventoinha de tecto de um quarto de hotel, até às imagens finais de um Willard completamente transtornado pelo seu acto, de destruição e da imagem final de um ídolo sobre a qual se houve uma voz assombrosa a exclamar "O horror, o horror" antes do écran ficar negro e surgir o genérico final, a ténue linha entre a racionalidade do ser humano e a irracionalidade do mesmo, é perfeitamente delineada em todo o filme.
Juntamente com a trilogia de "O Padrinho" (1972-1990), esta é outra obra-prima que Francis Ford Coppola filmou, mas a um preço que, duvido, qualquer cineasta, digno desse nome, dificilmente gostaria de pagar. Inicialmente a rodagem, que deveria demorar seis meses, demorou dois anos e meio e pelo caminho houve muita adversidade desde a mudança de actor para o papel de Willard (Coppola queria Steve McQueen que recusou, depois teve Harvey Keitel que abandonou as filmagens em conflicto com o realizador, acabou por finalmente ter Martin Sheen), as constantes alterações ao argumento, a falta de financiamento para o projecto até sets destruídos, actores hospitalizados um rol enorme de desgraças que muitas vezes fizeram perigar o projecto. A tudo isto Coppola, visionário como sempre, sobreviveu e brindou-nos com a sua visão (magnifíca) dum conflicto que mudou completamente a face da sociedade americana.
Vagamente baseado no livro "Heart of Darkness" de John Conrad, escrito em 1901, cuja acção se passa no congo belga no final do séc.XIX. Coppola e John Millius aproveitaram a ideia-base e o nome das personagens e transportaram a acção para o Vietname. O livro seria adaptado em 1993 para televisão por Nicolas Roeg com John Malkovich e Tim Roth.
Excepcionalmente bem realizado e interpretado por um elenco escolhido a dedo, encabeçado por um Marlon Brando que tem aqui a sua última grande interpretação, apesar de secundária pois só surge no último terço do filme, é hipnotizante e deixa-nos colados ao écran com os seus quase monólogos de um homem atormentado por tudo aquilo por que passou e que se sente grato por ser Willard quem o vem libertar; Martin Sheen, Frederic Forrest, o já citado Harrison Ford (cuja personagem, Lucas, nada mais é de que uma piscadela de olho ao amigo George Lucas), Dennis Hopper, com o seu visual acabado de sair de "Easy Rider" (Dennis Hopper, 1969), Laurence Fishburne completam o elenco onde nem falta Robert Duvall naquele que será talvez o seu melhor papel da sua já longa carreira. Bill Kilgore, conhecido como "Big Duke" (outra piscadela de olho do realizador desta vez a John Wayne o eterno cowboy do cinema), é quem vai pôr Willard a caminho da sua missão e para que isso aconteça, aproveita o facto do grupo do capitão incluir um antigo campeão de surf, ordena um ataque a uma aldeia para permitir que Willard comece a sua missão e satisfazer um capricho seu: fazer surf. Assim começa aquela que é a mais conhecida sequência de todo o filme e uma das melhores sequências de guerra da história do cinema.
Técnicamente brilhante em termos de realização, fotografia, montagem, e superiormente interpretada por Duvall, a cena abre com a chegada do barco de Willard que vem ao encontro da 1ªDivisão aérea do 9ºde Cavalaria (uma piscadela de olho aos westerns do mestre John Ford) onde surge Kilgore, vestido a rigor como nos tempos do velho oeste, a falar mal e depressa, rápidamente ficamos cativos desta magnifica interpretação que foi completamente ignorada na cerimónia dos Óscares (não passou duma nomeação para o actor). Robert Duvall, apesar do Óscar de Melhor Actor que ganharia pela sua interpretação em "Tender Mercies-Amor e Compaixão" (Bruce Beresford, 1983), será sempre recordado por esta interpretação do militar fanático por surf. Raramente se viu um papel ser interpretado com tanta convicção e credibilidade. É um dom que só alguns têm: Absolutamente fabulosa e inesquecível. Assim como também o é a sequência do ataque à aldeia onde nem sequer falta a componente musical e onde se comprova, uma vez mais, a genialidade do realizador; ao usar "A Cavalgada das Valquírias" de Richard Wagner, Coppola encontra aquilo que precisava para completar brilhantemente a sequência: a música dá um tom verdadeiramente apocaliptíco e, porque não, demencial a uma cena já por si realista que chegue. Esta é daquelas cenas em que a conjugação da racionalidade e da irracionalidade do ser humano se torna mais que evidente. Coppola sabia-o e mostra-nos isso mesmo, assim como o coronel Kilgore, depois de arrasar uma aldeia para ir fazer surf, não satisfeito, manda bombardear uma floresta inteira e depois de se vangloriar de mais uma das sua acções, diz, em tom de pesar, para um espantado Willard "...sabes um dia esta guerra vai acabar": terrivelmente fabulosa.
Coppola gostou tanto de fazer esta sequência que ele próprio faz uma aparição no filme (é o realizador da equipa de televisão que filma o ataque dos americanos). Esta sequência marca, de certa maneira, o fim da parte racional do filme e o triunfo, se quisermos, do bem. Daqui para a frente o tom do filme torna-se mais irracional, onde não faltam cenas a comprovar isso mesmo e onde nos apercebemos também, da verdade contida nas palavras do general Corman quando fala do eterno conflicto humano.
Apresentado pela primeira vez em Cannes, onde foi mostrada uma versão incompleta, montada (que o realizador chamou "A Work in Progress")para o certame, "Apocalypse Now" ganharia a Palma de Ouro juntamente com "O Tambor" (Volker Schlondorff, 1979) e serviria para aguçar a curiosidade do público europeu que viria a tornar o filme num dos maiores sucessos de bilheteira do ano no velho continente enquanto nos estados unidos o filme estreou rodeado de polémica devido ao tempo interminável da rodagem, não passou de um modesto sucesso.
Nomeado para oito Óscares da Academia, o filme venceria apenas em duas categorias: Melhor Som e Melhor Fotografia. recompensa pouco modesta para um filme desta envergadura, mas como as cicatrizes da guerra ainda eram muito profundas, entende-se perfeitamente este esquecimento vetado ao filme, tendo em conta que no ano anterior "O Caçador" de Michael Cimino, ganhara os prémios mais importantes da Academia e que, seis anos mais tarde, uma outra visão, esta mais pessoal, do conflicto, viria a vencer os prémios principais da Academia. "Apocalypse Now" apareceu cedo demais e ninguém entendeu o que o realizador quis dizer.
Em 2001, Francis Ford Coppola remontou o filme, acrescentando-lhe mais 50 minutos de cenas inéditas na versão normal. Não acrescentando nada de novo ao filme, esta versão serve apenas para projectar mais ainda uma visão já de si grandiosa. Se acreditarmos nas palavras do realizador quando fala desta versão a que chamou "Apocalypse Now Redux", percebemos que ainda não foi tudo dito acerca do filme
Obrigatório!
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
Danças Com Lobos (Pontuação: 10)
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O Pôr-do-Sol do Western!, 2009-12-14
Com algumas raras excepções dentro do género Western, os índios sempre foram considerados os maus da fita e, até não há muito tempo atrás, por falta de classificação genérica, eram chamados "filmes de índios e cowboys"( porque em qualquer filme do género havia sempre um combate entre índios e cowboys). Tudo isto foi mudando com o passar dos tempos, os filmes passaram a ser conhecidos como "Western" (porque se contava a história do avanço da civilização, a descoberta e colonização de novos territórios para Oeste). Actualmente poucos realizadores arriscam filmar um western talvez com medo estragar o resultado final.
O Tenente John J.Dunbar torna-se um héroi da Guerra de Secessão ao conduzir os Nortistas a uma vitória sobre os Sulistas. Como recompensa, pede uma colocação num posto Fronteiriço para oeste. Quando questionado sobre os seus motivos para tal escolha, o militar diz querer ver a Fronteira antes que ela desapareça e parte. Sozinho no meio do oeste selvagem, Dunbar, a princípio teme, mas depois torna-se amigo dos índios Sioux enquanto os prepara para a invasão da civilização que se avizinha.
Estreia auspiciosa de Kevin Costner na realização. O actor de filmes de sucesso como "Silverado" (Lawrence Kasdan, 1985), "Alta Traição" (Roger Donaldson, 1987), "Os Intocáveis" (Brian DePalma, 1987) ou "JFK" (Oliver Stone, 1991) entre outros, filma, apesar de não ter ainda um estilo próprio, com gosto e com o conhecimento do bom aluno que devorou todos os filmes deste género a que pôde deitar a mão. Tendo em mente os filmes de John Ford (o indiscutível mestre do western), Howard Hawks, Raoul Walsh ou mesmo Michael Curtiz, o resultado não desilude e convence. Qualquer um deles ficaria satisfeito com o trabalho de Costner.
Adaptando o romance homónimo de Michael Blake (que também escreveu o argumento), Costner filma o orgulho da nação índia e o avanço da civilização (retratada na cena da prisão e espancamento de Dunbar pelos seus compatriotas brancos) e os problemas que esse seu orgulho lhe estaria a trazer (toda a sequência do êxodo da tribo nos remete para esse momento), mas também filma a fronteira com um grande sentido narrativo e bom gosto (as cenas da imensidão da paisagem e a excepcional banda sonora de John Barry fazem qualquer um sonhar), põe em imagens os pensamentos e as acções de John Dunbar e nalguns casos faz com que o espectador faça parte da acção, onde o melhor exemplo é toda a sequência da caçada ao búfalo: muito bem realizada e extraordináriamente bem montada (o Óscar da Academia que o filme venceu nessa categoria, é disso exemplo). Igualmente bem filmadas estão as cenas do primeiro encontro entre Dunbar e os Sioux (com algum humor à mistura quando Dunbar tenta fazer café perante a audiência índia), a cena onde Dunbar tenta fazer com que "Ave que Esperneia" (magnifico Graham Greene) perceba que a civlização, simbolizada pelos brancos, está a chegar ou ainda a cena em que Dunbar e "Punho Erguido" (o melhor papel de Mary McDonnell no cinema) são apresentados um ao outro (é dramática a tentativa de "Punho Erguido" tentar expressar-se em inglês a sua língua materna hà bastante tempo esquecida) muito bem captado o dramatismo da cena num momento de rara beleza cinematográfica.
Um outro ponto importante da obra e que a torna de certa maneira original, é o facto de grande parte do filme ser falado em Lacota (dialecto índio). Antes apenas "Um Homem chamdo Cavalo" (Elliot Silverstein, 1970) era quase todo falado em dialecto índio o que na altura levou a que o filme fosse algo ignorado pelo público e nem mesmo a presença de Richard Harris no elenco o salvou desse esquecimento. Quando questionado sobre o facto de parte do filme ser falado em dialecto índio, Kevin Costner disse que é para lhe conferir mais autenticidade. Ele lá sabia do que falava.
Grande êxito de bilheteira e maior triunfo na cerimónia dos Óscares, onde nem mesmo a presença de Francis Ford Coppola com a terceira parte da sua ópera magnânima "O Padrinho", impediria a vitória quase total da estreia de Costner na realização. Com Doze nomeações, "Danças com Lobos" venceria em sete categorias incluindo o Melhor Filme do Ano e o Melhor Realizador. Um óptimo resultado para um filme de estreia, pena é que as obras subsequentes de Costner como realizador, pelo menos até agora, tenham ficado aquém do esperado.
Filme longo, estreou inicilamente numa versão de três horas (Kevin Costner preferiu assim não fosse o filme ser um fracasso...) e que é, consensualmente, a melhor versão do filme. No entanto depois do triunfo nos Óscares, Costner, que foi dos primeiros realizadores a ter no seu contrato uma clausúla que lhe permite ter mais direitos sobre os seus filmes (chama-se "Final Cut" e, sucintamente, diz que cada realizador tem direitos sobre a montagem final do seu produto), fez em 1992 sair uma "extended edition" onde acrescenta mais cerca de 40 minutos de material inédito mas que não acrescenta nada de novo ao filme a não ser uma visão mais aprofundada de de um filme que de épico já tinha muito. Costner sempre preferiu a versão comercial e poucas vezes se refere à outra versão. Qualquer uma delas é digna de ser visionada e constitui por si só uma obra fundamental na compreensão e análise de um género cinematográfico que aqui tem um magnifico pôr-do-sol mas cujo último capítulo ainda faltava escrever.
A não perder!
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)
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