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Muitos filmes de grande qualidade não têm o destaque que merecem, passando quase despercebidos. Por razões meramente económicas, as verbas promocionais concentram-se apenas em meia dúzia de títulos "mais comerciais". Para contrariar esta tendência, criámos este espaço de partilha e entre-ajuda, onde todos podem participar: escolha os filmes que achou mais marcantes e deixe o seu comentário.
Foram encontrados 141 comentários. Resultados de 1 a 20 ordenados por data:
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Os Quatrocentos Golpes (Pontuação: 9)
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Um Filme Interrogativo, 2018-12-27
Este filme inaugural de François Truffaut é considerado também o filme inaugural da 'Nouvelle Vague' do cinema francês dos anos sessenta, chamada a Nova Vaga em português. Como curiosidade, consta que é um filme largamente autobiográfico. Trata da história de um jovem indomável no início da adolescência, que faz "trinta por uma linha", expressão que deveria ter sido a tradução da expressão idiomática francesa 'les 400 coups'. A interpretação do jovem Jean-Pierre Léaud é convincente, ao contrário do seu trabalho de actor depois de adulto, até à actualidade. Encontramos realmente neste filme uma nova forma de filmar, e de filmar realidades suas contemporâneas, incluindo a cidade de Paris em 1959, à qual somos inevitavelmente transportados ao ver Les 400 Coups. À medida que Antoine Doinel, o personagem, vai basculando para fora de todas as instituições em direcção ao crime, somos realmente perturbados sobre o que são o livre-arbítrio e o destino: por um lado, Doinel é marcado desde que nasce por circunstâncias muito desfavoráveis, por outro lado sentimos que ele se deixa deslizar alegremente a caminho da exclusão. Ao vê-lo no close-up paralítico final, só espectadores optimistas darão "alguma coisa" por aquele pequeno delinquente em formação sozinho no mundo. No fundo, a imagem final da abertura da Nouvelle Vague é uma interrogação, e Doinel (Truffaut?) pergunta ao espectador "que pensas tu sobre mim?". Não apenas é feita essa pergunta, sem o ser explicitamente, como ao longo do filme somos confrontados com muitas outras interrogações e perplexidades acerca do nosso mundo. Les 400 Coups é um filme interrogativo, e muito eficaz.
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
O Tédio (Pontuação: 8)
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Um Filme Perturbante, 2018-12-25
O Tédio é um filme que cheira a cinema francês do fim do século XX, que então conheceu um ressurgimento, e ao mesmo tempo é uma das muitas produções de então do português Paulo Branco. Não é a primeira variante no cinema do tema da degradação de um espírito cultivado por intermédio de uma paixão apenas carnal, mas é terrivelmente eficaz. O 'not so unhappy end' é forçado, e a morte de Martin (magnífico Charles Berling) seria o fim adequado. O objecto da sua paixão, ou desejo desenfreado, a então muito jovem Sophie Guillemin, está como peixe na água compondo a figura da "cabra", ao mesmo tempo superlativavmente sexual num sentido animal e desprovida de qualquer amor. Pouco antes do final a mãe de Cecilia (Sophie Guillemin) explica numa frase à vítima por vocação Martin aquilo que lhe aconteceu. Já nos anos trinta Joseph von Sternberg com Marlene Dietrich exploraram a fundo o tema da mulher fatal, num filme cujo título rima com a intriga de O Tédio: O Diabo é Uma Mulher! Apesar de por vezes nestes filmes o realismo ser sacrificado, eles reflectem realidades de facto, e continuam a ser realistas: este tipo de mulher, como Cecilia, existe mesmo. Cuidado rapazes!
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
No Coração da Escuridão (Pontuação: 1)
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Ridículo, 2018-12-24
Desta vez deveria ter seguido a sensação que tive pouco depois do início do filme, de que era para esquecer. Infelizmente resolvi continuar a vê-lo, e posso confiadamente dizer que não passa de um filme de propaganda ao politicamente correcto e ao "ambientalismo". Mas o que a mim cinéfilo me dói não é sobretudo isso, é o aproveitamento descarado que o autor faz da obra de Robert Bresson, nomeadamente do superlativo Journal d'un Curé de Campagne de 1951, para fazer um filme que é a negação da obra da Bresson e do seu pensamento, e, como tal, um escarro num dos mestres da sétima arte. A todos os títulos esta "coisa" não passa de um panfleto repugnante. Foi, no entanto, muito apreciado pela "crítica".
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
Manhã Submersa (Pontuação: 8)
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A Força do Destino, 2018-08-13
Dentro das excentricidades do chamado "cinema português", ou seja, do cinema feito por portugueses, este Manhã Submersa do estreante Lauro António continua a merecer um lugar de destaque passados quase 40 anos da sua realização. Apesar dos seus defeitos, tais como algum amadorismo dos autores, a má dicção de muitos dos participantes, alguns planos bastante absurdos, a favor da obra está quase tudo o resto, desde o estofo literário que a sustenta, até à utilização cuidada da música, dos espaços serranos da acção, passando pelo bom domínio da linguagem cinematográfica de um realizador perto de principiante. Não é, nem de perto, o primeiro filme de denúncia de um sistema e de uma instituição de ensino, mas cumpre plenamente esse objectivo de Virgílio Ferreira, que se vê ele mesmo na pele do seu opressor de infância, ao interpretar o reitor do seminário - brilhantemente, diga-se. O DVD é rico em extras, incluindo um longo depoimento de Lauro António trinta anos depois, do maior interesse. Recomendo o visionamento do filme com legendas em português, que estão disponíveis. Quanto ao resto, é um filme imperdível para qualquer cinéfilo, sobretudo se for português. Mas o plano quase de abertura, de António imóvel na gare enquanto o comboio a vapor descreve a curva e se aproxima dele a toda a velocidade, parecendo ir esmagá-lo, ao som da abertura de A Força do Destino de Verdi, é um momento de grande arte universal, em que tudo é dito em poucos segundos, e como só o cinema pode fazer. E bravo, Lauro António!
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
A Partir de Uma História Verdadeira (Pontuação: 6)
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Um Filme Obsessivo, 2018-08-11
A Partir de Uma História Verdadeira é o último trabalho à data do velho mestre polaco, de seu nome Polanski. Não há nada de verdadeiro nele, o que torna logo o título tão enganador quanto a obra - digamos que logo o título pode ser visto como um aviso ao espectador! No entanto, a reflexão que pode provocar sobre a arte, a inspiração, a escrita, a criação de personagens e de enredos, o escritor e seus leitores, são sem dúvida interessantes. Polanski tem o mérito de ensinar o espectador a não confiar naquilo que vê, e engana-o com o mesmo deleite com que Hitchcock o fazia, mas com uma arte bem diferente, aqui com a colaboração de novo de sua mulher Emmanuelle Seigner e da igualmente sensual e mais jovem Eva Green. Um filme obsessivo, como Polanski.
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
Como Nossos Pais (Pontuação: 8)
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Uma Rosa na Tempestade, 2018-06-18
Como Nossos Pais, título de uma grande canção da imensa Elis Regina, é aqui título de um filme também brasileiro, e também honrosamente brasileiro. O filme é um retrato de Rosa, mulher de 38 anos, num momento decisivo da sua vida, em que tudo treme até às fundações. É preciso contar uma história pessoal, proclamava Rainer Werner Fassbinder nos tempos em que iluminava o ecrã com a sua arte. Laís Bodanzky faz isso mesmo neste filme, e isso já é muita coisa, pois é feito com inteligência, com paixão, com domínio da arte. Esta foi uma das poucas boas surpresas que o cinema me proporcionou nos últimos anos de indigência artística. E acrescento que, sendo brasileiro, o filme é falado de facto em português, o que não é a norma.
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
Três Cartazes à Beira da Estrada (BLU-RAY) (Pontuação: 3)
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3 Cartazes, Nota 3!, 2018-06-14
Comédia negra, diz a sinpose acima do filme. Não vi nada que me fizesse rir, pelo menos até ter desistido deste esforço frustrado de filme, que é apenas mais um exemplo da estaca zero a que chegou o 'mainstream' do cinema americano actual. Frances McDormand continua sendo uma grande actriz, mas não há grandes actores quando ao serviço de um realizador e argumento medíocres, cuja única aparente intenção é submergir o espectador com excitações continuadas. A ideia em si, a de um particular que compra um espaço publicitário, não sendo original, prestava-se, se houvesse talento, a fazer ao menos um filme com interesse, ou até um bom filme. Se!
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
Lumiére! - A Aventura Começa (Pontuação: 10)
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E Fez-se Luz, 2018-02-02
Lumière! é um excelente trabalho de divulgação da obra já cinematográfica, e não apenas técnica, de Louis Lumière, com seu irmão Auguste inventor do cinematógrafo, ou seja, daquilo que hoje chamamos o cinema. Classificando e montando mais do que uma centena de filmes de 50 segundos (formato obrigatório do cinematógrafo Lumière), feitos um pouco por todo o mundo por Louis Lumière entre 1895 e 1905, e juntando-lhes o comentário certeiro e informativo do autor, este filme é uma viagem simultaneamente às origens do cinema e ao fim do século XIX e ao dealbar do século XX, à 'Belle Époque', a um mundo que já não existe. Trata-se de uma viagem que não podemos fazer desta forma a épocas anteriores a 1895, e que o cinema, e só o cinema, possibilitou. Em Gone With The Wind uma das legendas iniciais adverte o espectador para aquele mundo que vai presenciar, e que foi levado pelo vento. Em Lumière! vamos mesmo ver um mundo que o vento da História levou, magnificamente captado pelos próprios inventores do cinema, e para nós compilado por Frémaux. Assistimos privilegiadamente à própria fundação da 7ª Arte.
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
Aquarius (Pontuação: 6)
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O Cancro de Clara, 2018-01-29
Eis um filme brasileiro recente que merece uma espreitadela, apesar da dificuldade de perceber vários dos diálogos. Clara (Sónia Braga) mora à beira-mar num apartamento num pequeno prédio que, por causa dela, resiste à invasão de torres de betão no litoral da capital pernambucana de Recife. Ela é uma sobrevivente do cancro, e tendo vencido essa doença, sente-se apta a lidar com a empresa construtora que a cerca por todos os lados! Infelizmente o argumento do filme, que é do realizador, deixa a desejar, e aquilo que poderia ter sido uma muito mais tocante história de resistência, acaba por se transformar num exercício maniqueísta e, sobretudo, irrealista. Mesmo assim, o conteúdo dramático de algumas das cenas compensa o espectador pela falta de talento do autor do filme noutras. Talvez Aquarius valha sobretudo pela reflexão que representa sobre o envelhecimento, sobre os conflitos geracionais, sobre o poder da vontade. Sónia Braga está como peixe dentro de água compondo a sua Clara, ela que foi outrora um 'sex symbol' memorável, expondo-se frontalmente sem uma mama (realidade ou ficção?), ao mesmo tempo que mostra que ainda sabe duas ou três coisas sobre sensualidade. Foi pena o realizador não ter sido capaz de melhor, pois tal era possível. Felizmente para ele pôde contar com Sónia Braga, magnífica, para lhe salvar a pele do desastre completo.
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
Eva (Pontuação: 9)
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Vamos ao Teatro, Entrada pelos Bastidores, 2017-12-18
All About Eve (pessimamente traduzido para Eva) é um filme que entre outras coisas nos fará lembrar como a "indústria cinematográfica" dos Estado Unidos foi grande, e suspirar por esses tempos ao comparar o filme com aquilo que é agora produzido. O espectador é aqui convidado a espreitar os bastidores da arte teatral de uma forma tão apelativa que rapidamente vai ficar "agarrado" àquelas personagens, que lutam cada uma à sua maneira pela glória e pelo aplauso do público, ou que participam nessa luta - o mundo é um palco, frase atribuída a Shakespeare, nunca terá sido mais verdadeira do que para elas, cuja vida gira à volta de um palco. Para as duas actrizes principais, magníficas Bette Davis e Anne Baxter, a linha que separa vida real e vidas das personagens que encarnam ou que conhecem torna-se quase invisível, e a peça continua fora do palco, coisa que Mankiewicz mostra com a mestria que o caracterizava. E no registo irónico, que no filme também se vira contra Hollywood - e mal sabia ele o que viria a ser Hollywood! -, Mankiewicz despede-se do espectador, mostrando na cena final que "o circo continua". Afinal, a vitória de Anne Baxter é uma vitória de Pirro, e o espectador poderá descobrir que a derrotada não foi quem parece ser. Isto num filme em que os "códigos de moral" americanos da época são sujeitos a uma rude prova, em que não há bons muito bons nem maus muito maus, tudo isso contribuindo para que o espectador seja continuamente surpreendido pelo rumo que as coisas levam. Como curiosidade, Marilyn Monroe tem neste filme um dos seus primeiros papéis no cinema, e bem divertido.
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
Uma Viagem Pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier (Pontuação: 5)
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Um Depoimento Pessoal, 2017-12-18
O título deste filme seria mais apropriadamente "Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier", pois baseia-se de início a fim nas paixões cinéfilas e na vida profissional do seu autor, omitindo grande parte do grande oceano que é o cinema francês, não só o primeiro que existiu, mas até hoje um dos principais a nível mundial, em todos os sentidos. Apesar de o longo documento de Tavernier ser pessoalíssimo, ele contém apesar disso motivos de interesse que justificam um visionamento, mas apenas para quem tem já a sua própria bagagem de cinema francês das épocas focadas, dos anos 30 até aos anos 70. Não é pois um documentário para todos.
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
São Jorge (Pontuação: 4)
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Um Filme Panfletário, 2017-12-17
Este é mais um filme sobrevalorizado pelo motivo do costume, ser politicamente um panfleto de esquerda anti-qualquer coisa, no caso vertente, supõe-se que seja contra a austeridade que foi imposta a Portugal em 2011. Apesar disso e de Marco Martins ser manifestamente um cineasta menor que precisa destes expedientes para singrar, aqui ele consegue construir uma personagem, Jorge, com algum interesse, muito graças ao seu actor, cujo trabalho foi reconhecido. Há no filme algo de Teresa Vilaverde na escolha da miséria urbana em que se desenrola a história e na imagética desolada e ansiogénica, mas sem o talento daquela. O naturalismo adoptado é não apenas falhado, mas muito aborrecido para o espectador, nomeadamente na inacreditável pronúncia dos diálogos, que chega à total incompreensão daquilo que é dito. Tinha uma certa curiosidade neste filme devido à reputação que ele adquiriu, mas também teria passado bem sem ele.
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
Wall Street (BLU-RAY) (Pontuação: 9)
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Um Clássico, 2017-12-05
Esta é uma muito boa edição do filme de referência sobre a Bolsa de Nova Iorque, rodado em plena efervescência da "reaganomics", e estreado por coincidência logo após o 'crash' bolsista de 1987. Além do filme o disco contém excelentes extras com depoimentos de muitos dos envolvidos, mas feitos já no terceiro milénio. A obra é como é comum em Oliver Stone e na América muito moralista, mas o efeito felizmente saiu frustrado, e é o "mau da fita" que até hoje capta o fascínio do público e que mandou Michael Douglas para as estrelas, onde já estava Kirk Douglas, seu pai. Wall Street é uma obra sob o signo do pai, o pai de Oliver Stone corretor de bolsa falecido pouco antes do filme e a quem este é dedicado, o pai do personagem principal, que é representado pelo próprio pai do actor principal, e enfim a relação paternal entre vários dos personagens e o protagonista. O moralismo de Oliver Stone tira algum valor ao filme, e o encontro final entre Gordon Gekko e Bud Fox num Central Park deserto não é crível, tal como algumas das peripécias da acção. Apesar disso, o estatuto de clássico do cinema é inteiramente merecido para Wall Street, e creio que a grande razão para isso foi mesmo que Oliver Stone sabia exactamente sobre o que estava a falar, mostrou o trabalho dos agentes de mercado real nos seus locais reais de trabalho em 1985, e captou perfeitamente o espírito financeiro especulativo dessa década. As rugas que o filme ganhou devem-se às grandes mudanças tecnológicas que ocorreram desde 1985, mas como retrato, como crítica, como interrogação, Wall Street não envelheceu. O discurso de Gordon Gekko diante dos accionistas da Teldar Paper é um dos maiores momentos de cinema de todos os tempos. Um clássico, sim.
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
A Minha Alegria (Pontuação: 7)
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Uma Viagem ao Inferno, 2017-08-22
O título deste filme do ucraniano Sergei Loznitsa, A Minha Alegria, só pode ser interpretado como irónico, pois do que se trata é da viagem ao inferno de um motorista russo de pesados. Mal poderia imaginar o pobre Georgy (Viktor Nemets) onde o levaria um simples frete de sacos de farinha, no meio de uma Rússia corrupta, selvagem e criminosa. No final Georgy sobrevive, de corpo, mas sentimos que a sua vida de antes da viagem está terminada, chegando a imaginar facilmente o suicídio como plausível. Este é um dos grandes filmes "diabólicos", contendo uma das cenas mais dolorosas que conheço, a do assassinato do pai de um pequeno rapazinho órfão de mãe e que estava na cama com ele. O horror de cada cena, de cada personagem, contrasta com a beleza das imagens e com a serenidade da Natureza. O misticismo russo está de volta!
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
Um Rei em Nova Iorque (Pontuação: 7)
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A Vingança Serve-se Fria, 2017-08-22
Este é um dos últimos filmes do lendário Charlie Chaplin, com quase 70 anos, que havia abandonado os EUA quatro anos antes por causa das purgas anti-comunistas bem conhecidas dos anos 1950. E a América foi paga pelo que lhe fez, através desta comédia satírica que explora brilhantemente a mentalidade americana, incluindo o anti-comunismo desenfreado do seu tempo. A moral da história poderá ser nunca persigas um grande cómico, porque ele pode fazer uma comédia sobre ti!
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
A Festa de Babette (Pontuação: 9)
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Grandeza e Gratidão, 2017-08-20
A Festa de Babette é um daqueles objectos únicos e inclassificáveis que um artista dos sete ofícios, o dinamarquês Gabriel Axel, acarinhou longos anos a fio tendo-o realizado com quase setenta de idade. Sente-se bem que nele o autor se empenhou totalmente, é em vários sentidos um filme de paixão, de paixão pelo belo, de paixão pela humanidade, de paixão pela França. Se me pedissem para escolher um só filme que fosse uma declaração de amor à pátria de Voltaire, creio que escolheria este, em que nem uma cena decorre em França. Mas vemos a França, e vêmo-la como nunca vimos, encarnada em Babette, a artista desterrada, que solta o grito que sai do coração de todos os artistas, dêem-me a chance de dar o meu melhor! Grandeza e gratidão, assim é o coração de Babette. Venha vê-lo também, mas não com as miseráveis legendas em português deste DVD (tive que ver com legendas em inglês).
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
A Queda do Império Romano (Pontuação: 6)
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O mau governo e os seus efeitos..., 2017-08-14
Não é muito amado este longo 'peplum' de Anthony Mann de 1964, contemporâneio por exemplo da Cleópatra de Mankiewicz. Apresenta, no entanto, bastantes motivos de interesse, tal como Cleópatra, embora não deva ser tido como de grande relevância histórica. Bastaria a sua lição final, uma grande civilização não é conquistada pelos inimigos exteriores antes de se ter destruído por dentro, para já valer o tempo gasto a vê-lo. O filme tem dois tempos, sendo quanto a mim o primeiro imensamente superior, o fim da vida de Marco Aurélio no apogeu do Império Romano numa fortaleza da fronteira germânica, junto ao Danúbio, e na neve - há uma beleza plástica nesses planos nevados com os archotes a arder que faz logo da obra um objecto singular. Juntando a isso o soberbo Alec Guinness como Marco Aurélio numa trama política de sucessão, e temos um bom momento de cinema. A salientar também como positivo, especialmente para Hollywood, o pouco acentuado maniqueísmo usado para definir as personagens principais, que não são caricaturais - no final os "bons", que não são assim tão bons, morrem todos, bem como o mau imperador Cómodo, que também não é assim tão mau - simplesmente não tem qualquer capacidade política.
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
Uma História de Violência (Pontuação: 7)
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Violentamente Belo, 2017-08-13
Uma História de Violência é um filme do canadiano David Cronenberg que vale bem um visionamento, embora não para pessoas particularmente sensíveis, dada precisamente a violência gráfica de algumas cenas. Tal como seria de esperar em Cronenberg, o filme tem várias camadas de leitura, desde a historieta de bandidos e de gangsters, passando pela reacção a situações extremas, pela atitude face à violência, pela verdade das relações humanas, pela relação inescapável de cada um com o passado e a memória, pelo crescimento e a formação das crianças, indo até ao mundo dos sonhos. A cena final é magnífica, é uma cena de perdão sem uma única palavra, na qual tudo é dito pela pequenina filha do protagonista, Sara (Heidi Hayes), num só gesto.
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
A Luz é Para Todos (Pontuação: 6)
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Não Basta Estar Contra, 2017-08-12
Eis mais uma raridade da Cineteka, um dos primeiros filmes do grande Elia Kazan, autor de obras-primas da 7ª Arte como Esplendor na Relva. Este filme não cai nessa restrita categoria, mas vê-se com interesse e emoção, sendo um belo exemplar dos tempos de glória de Hollywood - apesar da história e das situações não credíveis, a arte de Kazan consegue um tal deslumbramento visual do espectador, incluindo através da fotografia, que este acaba por ser agarrado pelo coração, e não pelo cérebro. Para isso é decisivo o elenco de luxo e a sua prestação, em que se conta um Gregory Peck ainda jovem. O filme é, creio eu, um exorcismo da América pelo Holocausto judeu e suas culpas nele, recusando-se a receber os judeus da Europa, e compactuando com Hitler até ser forçada a combatê-lo. Pode-se até dizer que o filme anuncia uma nova época nos EUA, em que se exige que as discriminações religiosas e raciais desapareçam - não tolerar, é o apelo de Kazan. Agradeço à Cineteka a descoberta de mais esta raridade.
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
Oldboy - Velho Amigo (Pontuação: 2)
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Intragável, 2017-06-12
Este foi mais um fracasso das minhas relações com o moderno cinema oriental, que não fui capaz de suportar durante mais do que alguns minutos. Eu leio abaixo outras opiniões e não consigo mesmo assim ver nada que me agrade - não há arte cinematográfica por aqui, há entretenimento, há o horror dos horrores, o passatempo.
Por Pedro Fernandes (PAçO DE ARCOS)
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