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A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ)
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2 Prémios e 7 Nomeações
Realização:
Martin Scorsese
Ano: 1988
País:
Canadá
EUA
Idade: M/16
Duração: 164 min
IMDB: 7.5 (25.444 votos)
Finalmente, a obra-prima mais pessoal de Martin Scorsese pode ser vista, fora da controvercia que gerou, e vista por aquilo que realmente é: um trabalho de 15 anos de amor. A marcante novela de Nikos Kazantzakis toma vida, neste filme tocante e espiritual. O elenco, cheio de estrelas inclui Harvey Keitel, Barbara Hershey, Harry Dean Stanton, David Bowie e Willem Dafoe como Jesus.
Detalhes Técnicos
Duração: 164 min. Vídeo: Widescreen 1.85:1 anamórfico
Áudio: Dolby Digital 5.1 Inglês, Dolby Digital 2.0 Espanhol Francês Italiano Alemão
Legendas: Português, Inglês, Francês, Espanhol, Italiano, Alemão,
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Entre o Espírito e a Carne (Pontuação: 10)
Desde muito cedo na sua carreira que Scorsese queria fazer um filme sobre a vida de Jesus Cristo, mas faltava-lhe a matéria em que se basear, porque ele não queria imitar as grandes obras do cinema mundial sobre o tema. Queria algo que,anos mais tarde,apelidaria de “o meu filme mais pessoal”.
Em 1972, enquanto filmava “Boxcar Bertha – Uma Mulher da Rua”, Barbara Hershey, a actriz principal desse filme, deu-lhe a conhecer o livro “The Last Temptation of Christ”, escrito em 1951 e publicado em 1953, por Nikos Kazantzakis, escritor e filósofo grego, no qual o autor dava a conhecer um Cristo diferente, cheio de dúvidas sobre o seu papel no universo, um carpinteiro odiado pelos judeus por colaborar com os romanos ao fazer-lhes cruzes que são depois usadas para crucificar os seus pares. A actriz pediu ao realizador que transformasse o livro em filme e que ela gostaria de interpretar o papel de Maria Madalena.
Scorsese adorou o livro. Kazantzakis expunha ali as mesmas dúvidas que ele tivera anos antes quando entrara no seminário e, pouco tempo antes de tomar os votos, haviam assaltado a sua existência. Tratou logo de adquirir os direitos de adaptação e, em finais da década de 70, pediu a Paul Schrader, que já escrevera o excelente “Taxi Driver” (Martin Scorsese, 1976), que transformasse o livro num argumento. Scorsese tinha encontrado o seu Cristo, mas ainda iria ter de esperar até 1988 para o levar até ao grande écran.
Em “A Última Tentação de Cristo”, assistimos á passagem de Jesus Cristo na terra, a sua vida enquanto homem, o apelo superior a que estava vetado, mas que não compreendia e os desafios que enfrentou como qualquer ser humano faz e também á última tentação a que foi sujeito já na cruz.
O filme abre com um “travelling” vertiginoso (quase como se o Espírito de Deus descesse á terra) que vai terminar num plano vertical sobre um homem deitado na terra (Jesus, o escolhido por Deus para cumprir a sua missão, as vozes que estão na sua cabeça e que ele não compreende o que pretendem de si).
Aquilo que vemos no écran é um Cristo confundido e pouco esclarecido sobre o propósito da sua missão e o que realmente querem dele, para isso, vai magoar Deus, até lhe ser explicado o que pretendem dele e fá-lo ao fabricar cruzes para os romanos; Judas, ao contrário do que falam os Evangelhos, era o mais devoto dos Apóstolos, cuja traição a Cristo foi para o salvar da própria humanidade e quem, em última instância, salva Cristo de sucumbir à Tentação e morrer condignamente em vez de o fazer como um ser humano comum; Maria Madalena, a prostituta que ama Jesus, quere-lo só para si e não aceita que ele lhe seja roubado, para o atingir, ela prostitui-se com todos os homens que encontra, acabando eventualmente por ser salva por um Jesus pré-messiânico, na dramática cena do apedrejamento onde Jesus tenta, em vão, explicar á multidão o que Deus pretende.
Um elenco de luxo, onde se incluem os nomes de Willem Dafoe, naquele que, se exceptuarmos o papel de Sargento Elias em “Platoon – Os Bravos do Pelotão” (Oliver Stone, 1986), será talvez a melhor sua interpretação; Harvey Keitel é Judas, o Primeiro Apóstolo (novamente ao contrário da história conhecida), encarregado de matar Jesus pela sua traição e que acaba convencido pelo próprio a ajudá-lo a perceber a sua missão. O actor, um “habitué nas produções de Scorsese, apesar do seu sotaque nova-irquino, tem uma prestação ao nível de tantas outras a que nos habituou em inúmeras produções; Barbara Hershey no papel de Maria Madalena, ama e é amada por Jesus, que a troca por desígnios mais altos, a bonita actriz tem aqui o seu melhor desempenho; Harry Dean Stanton, é o Apóstolo Paulo que, na sua vida alternativa, Jesus encontra a pregar sobre o messias que morreu na cruz; o realizador Irvin Kershner (no papel de Zebedeu, o responsável pelo apedrejamento a Madalena) e o cantor David Bowie, no papel de Pôncio Pilatos, entre outros, que contribui para tornar este filme um verdadeiro entretenimento.
Onde o filme se torna verdadeiramente magistral é na cena do Gólgota onde, graças à realização excepcional de Scorsese, vemos Cristo crucificado a ser tentado por Satanás para escolher uma vida normal e surgem então as tão polémicas imagens que puseram o mundo cristão em polvorosa: Jesus e Maria Madalena, casados, a fazer amor em sua casa. São cerca de cinco minutos em que somos postos perante uma espécie de vida alternativa de Cristo. Muito pouco tempo para criar tão grande polémica, uma vez que logo de seguida, a tentação termina e a história segue o seu curso como a conhecemos.
Apesar da polémica que acompanhou o filme, este conseguiu um sucesso moderado em países católicos e não católicos, críticas divididas, assim como a opinião pública. Não raro foi assistir-se a grupos de pessoas junto das salas de cinema a tentar convencer potenciais espectadores a não verem o filme. Portugal, como habitualmente, não foi excepção nesta situação. No meio de tanta polémica, o filme acabou por receber uma nomeação para os Oscares da Academia, precisamente para o seu realizador.
Desde o inicio do filme até á crucificação no Gólgota, assistimos a um olhar diferente, brilhante em alguns aspectos, e bonito da vida de Cristo a partir duma abordagem não tradicional e raramente vista, tornando a "A Última Tentação de Cristo" uma pequena obra-prima no universo cinematográfico, mas uma grande obra-prima no universo do realizador Martin Scorsese.
Por Rui Cunha (ALGUEIRÃO)2013-11-17
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